Querido ____, acabado de aterrar no mundo do cancro pela primeira vez. Sei que ainda não aterraste completamente, ainda estás meio a flutuar, na esperança de que te abanem e acordes de um pesadelo. Também sei que apesar disso, nunca resistes à tentação de mostrar ao mundo que estás muito bem resolvido com a notícia e que por isso confortas os que olham para ti em estado choque quando lhes contas a novidade e prometes que vai ficar tudo bem ou que é a vida… Ainda é difícil saberes o que precisas, ou de quem precisas nesta nova fase e por isso agradeces em piloto automático as mensagens que começas a receber em filinha do tipo “O que precisares diz”. Mas digo-te, se soubesse o que sei hoje, substituía o “que querido,obrigada!” por algo mais sincero do tipo:
“obrigada, mas não faço ideia, queres ajudar-me a descobrir?”. É que esta coisa da capa de super herói é uma chatice, vicia. É tudo novo, e a novidade tem de assustador o que que também tem de intrigante. Queres saber tudo, mas na verdade ainda não viveste quase nada por isso perdes-te em googles e Wikipédias à procura de respostas sobre esta doença que te deixa desde início cheio de perguntas. E entre pesquisas e imaginações, a notícia ainda está quente, mas a tua cabeça não consegue pensar de forma amena. Imaginas 30 cenários diferentes, uns positivos, outros aterradores e fica difícil encontrar a razão quando o teu coração experimenta a cada hora um sem número de emoções.
No dia a dia tentas pôr isto do cancro de lado e continuar a vida normal, ou então fechas-te em casa no quarto a chorar, cheio de medo do futuro. Na verdade deves estar a intercalar os dois e acredita, isso é mesmo normal. Junto dos amigos finges que está tudo bem, mas sozinho, de olhos postos no infinito, pensas no que pode acontecer e isso deixa-te o coração confuso. Os tratamentos ainda não começaram, mas queres começar já a “tratar” das coisas todas, com a ideia de que quanto mais rápido despachares pendentes, mais rápido passa o cancro e volta a vida. Vou contar-te um segredo, vão ser poucas as coisas que vão estar do teu lado “despachar”, apesar do trabalho de quem acompanha um doente oncológico não ser pouco.
Mas sabes, são muitas as que podes fazer por ti e por quem está a sofrer, não para despachares o cancro e voltares depois à vida, mas para aprenderes a passar por ele a Viver todos os dias (com V grande). Por falar em viver, vão passar o tempo a dizer-te para viveres um dia de cada vez e se de início te vai entrar a 100 e sair a 1000, ao fim de algum tempo vai começar a irritar-te. É que vais perceber que é muito mais fácil dizê-lo do que pô-lo em prática. Inquieta não poder prever o futuro por isso às vezes chega a revolta de querer saber logo o fim do filme. Ao fim de contas, queres descansar o coração, mas estas novas rotinas não parecem dar-te descanso. A única coisa que posso prometer é que os hábitos se ganham mais depressa do que imaginas e o que .
parece um inferno na primeira semana acaba por se tornar numa rotina despreocupada passado algum tempo, com muitos desafios mas também muitas oportunidades para viveres a vida com mais calma e dares valor a coisas estupidamente pequenas como um café ao sol ou um jogo de cartas. Querido _____ que acabou de chegar, se calhar achas esta mensagem uma confusão, mas sabes, é mesmo assim que são os os primeiros dias depois do diagnóstico. Não sei bem por onde começar, mas sei a quantidade de coisas que podia dizer-te sobre o começo. Acho que hoje fico pelo medo. Não tenhas medo de sentir tudo isto, a dificuldade em .
aterrar, a vergonha de não saberes o que precisas, a ansiedade de quereres descobrir o futuro, a vontade de ignorares o assunto de vez em quando na esperança de que vá embora, a irritação de ouvires conselhos ocos de quem não te compreende, a pressa de despachares tudo e a confusão dos primeiros tempos, é tudo normal, faz tudo parte do cancro. .