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A maratona dos medicamentos

A maratona dos medicamentos

Quando voltou para casa, depois de quase 3 semanas de internamento, não voltou sozinho, nunca mais andou sozinho. Trouxe consigo uma lista de 12 medicamentos dos quais nunca mais se separou e aos quais foi sempre acrescentando mais um. Lembro-me de, no dia em que voltou do hospital, agarrar nas muitas folhas que compunham a receita e ficar confusa com a quantidade de nomes estranhos e dosagens por ali espalhadas. Como era possível alguém tomar aquela quantidade toda de comprimidos por dia? Não fazia ideia, mas depressa ia descobrir. Assim que aviei a primeira receita depois do internamento, voltei para casa do pai e sentei-me na mesa da sala a tentar perceber qual seria a melhor maneira de organizar os medicamentos.

Eram imensos, uns minúsculos, outros enormes, uns sem cor, outros demasiado coloridos. Muitos deles eram parecidos, por isso era preciso ser criativa para não se baralharem todos. Decidi numerar as caixas com o abecedário, cheguei ao J e nos meses seguintes ainda percorremos mais algumas letras. Depois fiz uma tabela à mão com os nomes dos remédios, a finalidade de cada um deles e as horas certas em que deviam ser tomados. No fim, orgulhosa, entreguei tudo ao meu avô, que apesar de agradecido, disse envergonhado “És muito querida, mas eu não consigo ler o que está aqui escrito”. Desesperei. Não havia mais ninguém para tomar conta da medicação, como é que íamos garantir que o pai tomava aquela cartrefada de medicamentos de forma segura? Não fazia ideia.

Frustrada, prometi voltar no dia seguinte com aquelas caixas dos velhinhos que tomam a farmácia inteira diariamente. Até lá improvisei uma caixa que encontrei numa das gavetas e separei os comprimidos do dia seguinte na certeza de que não deixava margem para dúvidas. Mas as coisas nem assim correram bem. Às 7:00 do dia seguinte acordei com o telefone a tocar aos berros. Li “Pai” no visor e estremeci. Tinha baralhado os medicamentos e já não sabia quais eram os da manhã. Pedi-lhe uma fotografia do que ia tomar e assustei-me com a confusão, comprimidos repetidos e cores trocadas. Em pânico fiz uns desenhos sobre a fotografia e enviei de volta garantindo que desta vez ficava tudo certo.

Não voltei a dormir mais nesse dia e foram várias as noites em que dei voltas na cama sem sono, cheia de medo do que uma toma errada ou um exagero de SOS pudesse causar. Tentei ao máximo controlar as doses, as horas e os comprimidos tomados, mas era praticamente impossível porque não podia estar sempre ao lado do pai nem impedi-lo de tomar SOS quando estava cheio de dores. Hoje ainda sei os nomes de cor, as finalidades de cada um e as contraindicações de cada toma. Hoje ainda recordo com dores de barriga os efeitos dos comprimidos para a dor na expressão do pai, mais estranha, mais distante. Hoje ainda não resisto a perguntar o que tomam os outros em situações parecidas e ainda me passam em revista as corridas às farmácias quando o stock acabava sem aviso.

Hoje ainda salto de rompante de vez em quando a pensar que tenho de ir organizar medicamentos na caixa dos velhinhos. Aprendi a aceitar, a não julgar e principalmente a acompanhar esta caminhada tão própria e tão sensível que pode ser a maratona dos medicamentos

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