Há 3 anos a vida era normal, tinha o futuro delimitado a regra e esquadro e uma série de metas ambiciosas a alcançar. Há 2 mergulhei na dor e nas saudades, alimentando uma certeza triste de que o sol não voltava, não ia voltar nunca mais. Passado uns tempos apanhei um avião (na verdade vários) para o outro lado do mundo, rumo a um semestre enquanto voluntária num projeto em Timor-Leste. E há 1 despedia-me deste país que foi casa durante 6 meses, com um coração palpitante, movido à força da alegria, do amor e de uma vontade gigante de conhecer (ainda) mais mundo.
Para uns, se calhar, um passo a trás, um adiar do início da vida adulta ou uma fuga à realidade, à dor. Para mim, foi o tempo que precisava para voltar a sentir-me livre, depois de 6 meses presa a uma doença exigente, que desarrumou a cabeça e o coração. O sítio onde voltei a rir alto, sem culpa. Onde aprendi a viver a um ritmo mais lento e a ter tempo para os outros. Onde fiz as viagens mais incríveis. Onde conheci uma cultura diferente que me ensinou a ver a vida de outra forma. Onde fiz amigos de quem tenho saudades. Onde integrei um projeto com muito propósito que puxou por mim e me fez sentir realizada. Onde vivi tanta coisa em tão pouco tempo e a onde gostava de voltar um dia. 1 ano depois ainda é estranho estar de volta e ter noção de que foi tudo real, de tão bom que foi. Ainda me perco a pensar como pude sair tão feliz quando cheguei com um coração tão triste.
E por tudo isto, se só pudesse desejar uma coisa para todos aqueles que vivem o cancro de alguém querido era que não perdessem a esperança num sol que volta, ainda que sem data marcada e sujeito a várias falhas metereológicas. Que também tenham a sorte de conhecer a bonança depois da tempestade e a oportunidade de ter alguma coisa que os agarre à vida, depois de serem confrontadas com a escuridão do luto. Tal como eu tive o meu gap year, tal como eu tive Timor: a prova de que depois de muitos dias a preto e branco, ainda é possível viver uma vida a cores. 1 ano depois ficam saudades, IMENSAS, fica o desafio de não me deixar levar pelo ritmo acelerado do dia a dia e esquecer a forma leve com que aprendi a encarar a vida, do outro lado do mundo. Mas fica uma gratidão tão grande, que sabe ser maior do que tudo isso… ao sol por ter voltado, ao pai por me ter dado esta missão de ser um coração que vive pelos dois e a Deus por ter (sempre) um plano para mim.