Gostava de poder falar da primeira consulta, mas não estive presente. O cancro chega de repente e não nos dá tempo para organizar agendas ou para percebermos logo em que medida vamos ser precisos. Demoramos algum tempo a aceitar o diagnóstico e a entrar na corrida louca de consultas, tratamentos e idas às urgências. Atrevo-me mesmo a dizer que no inicio a sensação de ser tudo um pesadelo é tão intensa que não temos consciência da dimensão do que nos espera (ou tentamos não ter). A primeira consulta estava marcada para o dia seguinte ao dia em que o pai nos contou o diagnóstico. Ainda estava tudo dormente, na minha cabeça mas sobretudo no meu coração. Lembro-me de perguntar a medo se era preciso ir com o pai, mas depressa respirar de alívio ao saber que tinha companhia.
Nessa altura ainda achava que o cancro era um tema de adultos crescidos, tão complexo, tão exigente, tão duro que nenhuma criança ou jovem teria alguma vez capacidade para gerir. Não fazia ideia de que rapidamente o “adulto crescido” ia ter de ser eu e que a medida da nossa força para enfrentar este tipo de coisas não depende da idade, mas infelizmente da necessidade. Mas se não estive na primeira consulta, estive na segunda, na terceira, na quarta e na maioria das que se seguiu e a não ser o choque inicial, são poucas as coisas que mudam de umas para as outras. A data pode mudar, mas o sentimento é o mesmo em todas elas, um misto de medo, com coração acelerado e uma adrenalina tão forte como o frio da barriga das montanhas russas.
Assim que acabou a consulta liguei ao meu pai para saber de tudo e aí percebi que tinha mesmo de ir às próximas porque a informação era uma confusão . As palavras otimistas do meu pai em nada tinham a ver com o relatório que tinha lido naquela tarde em que descobri o malvado diagnóstico. Descrevia as coisas com uma leveza que me parecia difícil de acreditar e as frases eram contraditórias e muito pouco claras. Depois de dar muitas voltas e tentar refazer na minha cabeça várias vezes a conversa que tivemos por telemóvel, decidi enviar um email à médica a implorar por uma conversa as duas. Passado 2 dias estava a entrar pela primeira vez no piso 2 do Hospital, o piso das consultas de oncologia. Olhei em volta e vi rostos cansados, alguns sem cabelo, outros com bobies de oxigénio, outros iguais a mim. .
A sala estava cheia e mal havia vagas nas cadeiras azuis onde cada um esperava que o seu nome fosse chamado. Estava inquieta, os minutos não avançavam e o medo era tanto que fazia doer a barriga. Depois de algum tempo à espera, a médica chamou-nos. A minha mãe tinha ido comigo, felizmente. Na altura achei que não fosse preciso, hoje vejo que foi essencial. É que nestas alturas em que ainda estamos meio anestesiados e a linha que separa o real do impossível é demasiado ténue, é fundamental ter alguém ao nosso lado, que ouve o mesmo que nós, que apanha as palavras que perdemos e que no fim da consulta está de braços apertos para receber as nossas lágrimas quando a porta do consultório se fecha e a ficha cai.
Não me lembro de uma palavra do que ouvi, mas lembro-me bem de sair dali e de me sentir a flutuar. Lá dentro a informação parecia muita mas no fim as novidades eram poucas. Novamente ficaram apenas frases soltas “ainda não sabemos que tratamento vamos escolher”; “os resultados da biópsia ainda não chegaram”; “não sei dizer qual é o prognóstico de vida”, “o cancro é muito imprevisivel”; Fiquei frustrada e irritada. Estava a caminho do último ano do curso, a meses de ir de erasmus para a cidade que sempre tinha querido. Tinha a casa arrendada, os voos comprados. Por isso chateei-me a sério com o mundo nesse dia. Até tinha aceitado o cancro do pai (ou tive de aceitar), mas o mínimo era vir acompanhado de respostas, é que não havia nada mais frustrante do que passar a viver num limbo.