Não estou a estudar Psicologia, mas à medida que vamos correndo esta maratona vão-me chamando à atenção certos fenómenos intrigantes do processo. Tentei fazer um recap do dia em que o pai voltou para casa, lembrar-me da manhã, do meio do dia, daquilo que fiz até estacionar o carro à porta de casa do pai às 6 da tarde, mas por mais estranho que pareça não me lembro de nada. É como se o meu cérebro tivesse apagado tudo o que vivi durante as primeiras 10 horas do dia desde que me levantei. A mãe diz que é porque o que se passou a seguir foi muito intenso, deve ser isso, mas não deixa de ser esquisito.
Eu e a Madalena chegámos a casa do pai tranquilas, muito calmas, mas mal passámos a ombreira da porta a calma dissipou-se muito rapidamente. Estava tudo alvoroçado, numa agitação como eu nunca tinha visto. A tia e o avô de mãos na cabeça tentavam reunir todas as folhas da receita dos medicamentos que o pai devia tomar em casa, receita essa que mais parecia um livro. Estávamos muito confusas sem saber bem o que fazer, como ajudar. Ajudámos o avô a encontrar todos os papéis que precisava para que saísse de casa o mais depressa possível e comprasse os medicamentos. Foi a pé, estava nervoso para usar o carro e também ninguém se lembrou de o levar. Enquanto tentava organizar o resto da papelada espalhada pela mesa da sala ouvi o pai chamar. Corri
para o quarto, vi-o finalmente, estava a evitar entrar ali, tinha medo. Não houve tempo para cumprimentos sequer porque mal entrei pediu logo “as folhas” Quais folhas?” Perguntei cada vez mais baralhada. “As folhas da receita” insistiu. “A receita levou o avô para a farmácia, pai.” Disse eu a medo. “Eu preciso da receita para saber o que posso tomar, estou cheio de dores” disse o pai. Repeti que não as tinha, que tinha apenas fotografias no telemóvel e que podia eu procurar o que podia o pai tomar naquele momento, mas não me pareceu nada convencido. Sem saber o que fazer corri para a sala e li a receita no ecrã do telemóvel, eram mais de 10 medicamentos todos com nomes estranhos sem o mínimo de indício
de para que servia cada um deles. Encontrei um que vinha com uma nota de lado “SOS dores”. Perguntei ao pai se se lembrava quantos já tinha tomado, não fazia ideia. Paralisei sem reação e fiquei à espera que alguém me dissesse o que fazer. Depressa a tia sugeriu que fosse ter com o avô e trouxesse o SOS o mais rápido possível. Saí de casa a correr, nem o elevador usei tal era a pressa. Atravessei o quarteirão em modo sprint até à farmácia. Interrompi o avô, a farmacêutica, as regras de educação ficaram esquecidas, não havia tempo para isso. “Boa tarde, precisava mesmo do SOS desta receita” disse ofegante enquanto folheava as muitas páginas que a compunham.
A farmacêutica abanou a cabeça e arregalou os olhos vagarosamente “não temos esse medicamento, só por encomenda e demora uns dias a chegar”. Olhei para ela estupefacta, ninguém nos tinha avisado de que aquele era um medicamento hiper exclusivo e extremamente forte, considerado uma droga ao ponto de ser obrigatório entregar o cartão de cidadão e a morada do comprador. Voltei para casa do pai para ir buscar o carro e comecei a corrida das farmácias com o avô. Nenhuma tinha o medicamento e a cada “não” que recebíamos chegavam chamadas da Madalena a perguntar pelos medicamentos porque o pai não estava bem. Às tantas não soube o que fazer, desisti, liguei à mãe à beira das lágrimas. Veio logo ter comigo e começou a
a pensar em possíveis soluções. Alguns telefonemas depois soubemos que a única farmácia que tinha o remédio ficava em Cascais, todas as outras só funcionavam por encomenda. Incansável, a mãe passou em casa do pai para levar a Madalena e foram em busca do medicamento salva vidas. As horas foram passando e quando chegou a Madalena com o SOS já era noite. Olhei para o relógio, já passava das 22:00h. Lembrei-me que não comia nada desde o almoço, mas a adrenalina escondia a fome. O pai estava cansado, tinha tido um ataque de tosse muito forte ao levantar-se da cama para jantar, como eu nunca tinha visto. Tudo isso para nem sequer tocar no jantar, uma salada super gourmet que tínhamos feito.
Voltou para cama e despedimos-nos dele. Estávamos exaustas. Saímos de casa do avô em modo morto vivo, a mãe esperávamo-nos la em baixo também cansada. Mas como apesar de não controlarmos o decorrer de um dia podemos sempre ditar o seu final, este acabou no Mac, com um jantar as 23:00 com direito a tudo e mais alguma coisa para atenuar o stress daquela longa tarde.