Era uma tarde de junho, estava no meio de um babyssiting frenético entre boleias e brincadeiras. Recebo uma chamada do pai, estranhei. A meio do dia? Nunca acontecia, aliás, eram raras as vezes em que nos ligava por chamada. Atendi meio aborrecida: – Olá pai, sim? Respondeu com uma voz triste que já se fazia sentir há alguns dias mas que não dava sinais de querer dar explicações do que se passava. Perguntei como é que eu estava, outra pergunta rara, o meu pai não ligava a meio do dia para perguntar como é que eu estava. Respondi indiferente e devolvi a pergunta. – Não estou melhor, tenho tosse, sinto-me cansado…
Desvalorizei, por amor de Deus, era uma constipação de certeza, nada de grave. Perguntei se já tinha ido ao médico e depois de hesitar um pouco (agora reparo que hesitou) respondeu com um tom ainda mais triste que sim e que tinha uma mancha branca no pulmão. Procurei na internet o que podia ser e o meu coração parou, no meio das 30 coisas que apareciam na lista estava o cancro. Mas rapidamente a minha preocupação desapareceu: – A médica disse que era uma pneumonia. – disse o meu pai. Ainda fiquei mais irritada, que stress desnecessário, podia ser tão grave e afinal era só uma pneumonia, que pessimista…
– Pai, ao menos é só isso, imagina que era um cancro, tens é de ficar feliz com o diagnóstico. Isso com antibiótico passa e daqui a 1 semana já estás ótimo! Ignorou, desliguei. Passado 3 dias ligou outra vez, estranhei novamente, atendi. Repetiu-se a conversa, devolvi novamente a pergunta: – Não estou melhor, fui à médica e temos de falar. Exaltei-me. Tínhamos de falar como? Porquê? O meu pai não era nada de conversas sérias, várias já tinha tentado ter eu, mas acabava sempre por levar tudo para a brincadeira. – Não é uma conversa para se ter por telemóvel, falamos quarta quando vierem cá jantar (porque temos os pais separados por isso às quartas jantamos com o pai).
Era terça feira, impossível esperar até quarta. Desliguei o telemóvel zonza. Estava à porta do prédio quase a entrar para o babyssiting, passou-me tudo pela cabeça, revi a lista das 30 coisas, o cancro. Seria? Gelei. O dia demorou horas a passar, os pensamentos corriam a fundo, mas os ponteiros aquietavam-se no relógio. Ao fim da tarde fui até casa do meu pai com a minha irmã do meio (17 anos) e com a minha mãe, que não me deixou levar o carro e ficou lá em baixo à espera. Só fiquei mais stressada, o meu pai vivia a 10 minutos de nossa casa, por que raio não podia levar o carro? Seria assim tão grave? A minha mãe achava que íamos desmaiar quando soubéssemos da tal notícia?
Subimos. O meu pai esperava-nos na sala com uma cara difícil de decifrar. – Olá! Como estão? Como foi o dia? – estava só a empatar a conversa. Sentámo-nos, na mesa da sala estava uma pasta gorda azul de uma clínica. O meu pai começou a balbuciar umas palavras, mas eu não me lembro de nada, ficam apenas chavões que marcaram “cancro”, “no pulmão”, “metásteses”, “tratamento para a vida”. Não verteu uma lágrima, nós seguimos o exemplo. Pedi para ver os exames. Não percebo nada de medicina, mas qualquer leigo percebia depois de ler aquelas folhas que era grave, muito grave. Perguntei há quanto tempo sabia, respondeu que há vários dias, recapitulei-os na minha cabeça e estranhei:
– Mas eu liguei-te na sexta feira e disseste que era só uma pneumonia – disse eu a tentar acreditar que não passava de um mal entendido. – Soube nesse dia, mas não tive coragem de te dizer. – Engoli em seco e senti-me a pior pessoa do mundo. Já não me lembro do que disse, mas sei que usei um tom descontraído e despreocupado “Vai correr tudo bem, na nossa família corre sempre” pensei. Despedimos-nos do pai com um abraço mais apertado do que o habitual e uma promessa de voltarmos lá a casa no dia seguinte. Mal fechámos a porta de casa desatámos num pranto, foram lágrimas, foram meias palavras, foram soluços. Ficámos ainda uns minutos no elevador só as duas. Sentimos logo que por mais apoio que fôssemos ter, aquela era uma luta muito nossa, só nossa.
Lá fora a mãe estava à nossa espera com um abraço. Chorámos, chorámos e chorámos em frente ao prédio, ao pé de um poste do qual ainda hoje me lembro. Deitámos tudo cá para fora, sem reparar-nos quem nos estava a ver de lá de dentro. Quando voltámos para o carro olhei para a janela do prédio, estava lá o meu pai, acho que foi das únicas vezes que nos viu a chorar. E foi assim que o dia que pareceu ser o fim do mundo se tornou no início de uma longa viagem.