O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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Quem vai à frente

Quem vai à frente

Depois dos primeiros dias e das notícias acalmarem, chega a pergunta do “E agora?”. É que se no início nos perdemos na azáfama de saber o diagnóstico, correr para as primeiras consultas e ir visitando quem está doente com muito mais regularidade, nos momentos mais calmos (ou não tão agitados) damos por nós a pensar como é que vamos viver os dias, meses ou anos seguintes. Gostávamos que o cancro viesse com um manual de instruções, uma receita com todos os passos. Mas não vem e como a vida continua, não para, as decisões, os planos e os prazos continuam a correr sozinhos, não esperam por nós. No meu caso, as indecisões chegaram muito depressa porque sempre fui uma pessoa muito organizada e que gosta de ter tudo controlled. Fazia uma missão

de voluntariado na semana a seguir ao diagnóstico ou ficava em Lisboa com o pai? Ia descer a costa vicentina com amigos dali a 2 semanas e faltava aos anos do pai ou ficava em Lisboa para passar com ele este dia agora ainda mais importante? Mantinha as férias de família de 2 semanas longe ou era melhor marcar algo mais perto ou não ir de todo para estar disponível para qualquer imprevisto? Ia de erasmus em setembro ou desistia e ficava em Portugal? As perguntas eram cada vez mais, mas as respostas cada vez menos. Queria ter uma bússola, algo que me dissesse qual era a decisão certa. Mas depressa percebi que não há decisões certas nesta doença porque são tudo assuntos muito nossos, sobre os quais ninguém se atreve a opinar por saber que a consequência no caso

de uma escolha “menos certa” pode ser a culpa e essa assusta qualquer um por parecer ficar para a vida inteira. Felizmente tenho uma mãe muito pragmática que rapidamente construiu uma grande rede de contactos com pessoas que já tinham passado por isto e tentou ao máximo recolher conselhos, ideias e sugestões de quem já tinha felt o cancro de alguém próximo na pele. Estas ajudas foram essenciais, a par do apoio da minha psicóloga foram colo, foram alívio, foram descanso. Desvendaram muitos mistérios que assustavam, descansaram alguns stresses desnecessários e principalmente convenceram-me a investir a sério no amor, a não fugir do cancro a sete pés com medo dele. .

Com elas percebi que às vezes é mesmo preciso mudarmos os nossos planos e dedicarmos a maior parte do nosso tempo a quem está doente, porque é isso que garante que depois não fica uma ponta de culpa e que nos permite descobrir o lado positivo desta doença, porque sim, existe um lado positivo! Foi graças a estas pessoas que tomei a decisão de não ir de erasmus quando ainda não tinha noção da gravidade da doença. E foi graças a essa decisão que pude acompanhar o meu pai de perto, sempre, o que trouxe muitos momentos de angústia por ter a plena consciência do seu sofrimento, mas também o dobro dos momentos de alegria, cafés ao sol, jogos de cartas, conversas banais e gargalhadas.

Em 21 anos de vida nunca estive tanto tempo com o meu pai, nunca o conheci tão bem e nunca senti tão perto. O cancro no nosso caso aproximou 2 pessoas que tinham uma relação complicada, levou as zangas e trouxe o perdão e isso vai ser sempre o maior presente que levo desta viagem. Por isso, querido _______, não tenhas medo de pedir ajuda, de falar com quem já passou por isto. Expõe o que sentes, as dúvidas que te inquietam ao deitar e as curiosidades que te deixam a pensar na vida quando acordas. Depressa vais descobrir que mesmo que não sejam amigos de longa data ou amigos sequer, são pessoas que partilham contigo uma coisa muito especial e que num mundo onde começas a achar que ninguém te compreende podem ser um verdadeiro porto de abrigo.

Não fujas da doença, não deixes que o medo te paralise. E para um dia não te arrependeres do que ficou para trás, confia, ouve, procura, procura quem já vai à frente. (Obrigada à Francisca, ao Gonçalo, à Rosa, à Marta, à Inês, à Carolina, ao João, à Sofia, ao Luís e ao grupo de ajuda da liga portuguesa contra o cancro e a tantas outras pessoas que com a partilha da sua história me ajudaram a viver melhor a minha) .

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