O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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Hoje é um dia bom

Hoje é um dia bom

. Hoje “era” um dia bom. Hoje almoçamos fora, rimos e damos presentes. Hoje o almoço custa a engolir, suspiramos, sentimos falta de quem não está presente. Hoje publicamos fotografias orgulhosos (e bem), hoje o orgulho é demasiado grande para pedirmos colo já que o nosso já não está cá. Hoje para alguns é só mais um dia normal, hoje passou a ser mais um dia a oferecer concorrência para o dia mais triste do ano. Hoje é um dia agridoce, para uns tão bom, para outros tão triste. Passei por ele tantas vezes em anos passados, mas nunca me tocou tanto como o que vivo agora no presente. É que sempre dei por garantido vivê-lo a vida toda, agora custa-me imaginar uma vida toda sem ele.

Há um ano cronometrei este dia ao máximo, almocei em tempo recorde com o meu pai e saí a meio do prato principal a tempo de voar para uma atividade de voluntariado. Lembro-me de pensar que uma atividade no dia do pai não fazia sentido nenhum porque todos tinham um almoço de família marcado. Mas depois pensei que a maioria dos que ali estavam não podia passar o dia com o seu pai enquanto que o meu não fugia nos restantes 364 dias do ano por isso fazia todo o sentido. Acho que o cancro levou qualquer bocadinho de culpa que pudesse ter ficado de não ter passado o último dia do pai a tempo inteiro. Ensinou-me que quando temos a vida por um fio todos os dias são dias do pai porque temos consciência de que algum poderá ser o último e não queremos deixar nada por dizer.

Por isso, se antes este era dos poucos dias em que dizia ao meu pai que gostava dele, hoje o dia custa menos por pensar que nos últimos meses repeti isto vezes suficientes para compensar as que não lhe vou poder dizer nos próximos anos. Claro que ficam conversas pendentes, que hoje o dia tem mais horas e que faz falta o almoço especial e o presente comprado com carinho. Claro que as lágrimas caem com mais força e os suspiros de injustiça soam mais alto. Claro que ilusoriamente pode parecer que dava tudo por mais uma palavra, mais um sorriso mais um abraço. Mas na verdade nunca existiriam abraços suficientes para aceitar que seriam os últimos por isso confortam-me os que ainda tive oportunidade de dar. .

Fica a dor de hoje custar mais não o ter a morar aqui, mas apazigua-a a certeza de que mora perto, de que está sempre por perto. Por isso, neste dia do pai, pelo teu que cá está, pelo dele que está no hospital ou pelo meu que já não mora aqui, aproveita o teu ao máximo. Deixa as zangas e azedumes de lado e abraça-o. Atrasa aquele café da tarde que te faz querer sair a voar do almoço de família, há tanto tempo para cafés… larga o telemóvel ou aquilo que te prende ao mundo lá fora e fica, dá, devolve, entrega, vive! Hoje, penso em todos os pais que vejo pelo vidro dos restaurantes, nos que encontro a passear de mão dada pelas ruas, mas também nos que imagino a sofrer numa cama de hospital, ou nos que estão zangados com os filhos e não se falam. Hoje vibro ainda mais ❤ com os vossos, mas sinto falta do meu

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