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Internamento II — As burocracias, regras e regrinhas

Internamento II — As burocracias, regras e regrinhas

Internamento II As burocracias, regras e regrinhas

Estou a tirar direito por isso supostamente lido com regras dia sim dia sim. Mas entre resolver casos práticos numa aula da faculdade e ver o direito a funcionar no dia a dia vai uma diferença grande pelos vistos pelo que o que pode ser uma paixão no primeiro caso, depressa se converte em desespero no segundo. Desconfio que saber gerir o sistema de visitas de uma das alas de medicina interna de um hospital seja tarefa mais difícil do que qualquer exame da faculdade. O processo parece simples, mas não tem seguro contra todos os riscos. Arriscamo-nos a ser dos que não têm solução na lei para o seu caso e por isso têm de vestir a sua capa de advogado (com ou sem licenciatura) para tentarem fazer valer os seus direitos. A jornada começa no piso 0, tiramos uma senha de

visitas. Enquanto andamos em círculos perto da porta principal, junto ao segurança que controla as senhas para evitar contrabando, esperamos que o nosso número seja chamado. Depois vamos ao balcão e respondemos às perguntas de forma automática, quem somos, quem vimos ver, o que somos (quase tão profundas como as das aulas de filosofia). Respiramos fundo e rezamos para que ainda haja senhas, já que só há 2 por dia para cada doente. Aqui a coisa complica, é que são 2 senhas independentemente da situação em causa (exceto em casos de fim de vida, mas por experiência própria até esses são dúbios) e por isso começam os stresses. Ou porque alguém soube que a pessoa estava internada e decidiu passar para dar um beijinho, ou porque é uma família numerosa e por isso há mais de 2 filhos com

saudades do pai, ou porque há menores envolvidos e para uns contam como pessoa inteira, mas para outros só metade … Começa a batalha campal e o caos de valores. De repente as boas ações de uns tornam-se ataques pessoais para outros e às tantas parece valer tudo para conseguir um dos dois autocolantes brancos da secretaria a dizer “visita” que passam a valer mais do que ouro. No nosso caso é sempre um 31, somos 3 irmãs; duas menores e é difícil convencer as senhoras do balcão da delicadeza do nosso caso. Tentamos explicar com calma que o nosso pai não está internado na medicina interna porque teve uma apendicite ou foi operado ao joelho, na verdade tem um cancro, mas tem de ficar

neste serviço porque oncologia não tem internamento. Quando são menos compreensivos explicamos que o prognóstico de vida é muito reservado e que por isso não sabemos quanto tempo irá durar o internamento ou até mesmo a vida, mas mesmo assim na maioria das vezes a história não muda nada. Porque lá estão as malditas regras e a sua incapacidade para responder a estes casos fora da caixa. Por tudo isto já houve dias em que gritei, dias em que chorei, outros ainda em que fiquei com amnésia e uns em que desisti e tentei só a minha sorte à porta do serviço. Tenho orgulho em dizer que consigo quase sempre, mas não me orgulho deste sistema de visitas que criaram. É que se ganhei novas skills a nível da criatividade e da paciência, também adquiri

algumas rugas com a ginástica necessária para conseguir chegar ao elevador e passar o 2° segurança. Nesta fase estamos já a meio caminho, falta só apanhar o elevador quase até ao topo e entrar na sala de visitas da ala. Com o tempo vamos aprendendo os truques, com a força da experiência mas também graças aos conselhos amigos dos outros que já “esperam” nesta sala há mais dias, semanas do que nós. Confessam-nos a melhor hora para tentarmos a nossa sorte nos dias em que não conseguimos senha e piscam-nos o olho quando aparece um enfermeiro querido que mais do que a regra segue o coração. Mas não ficamos por aqui. Até às 16:00 ainda temos de passar no desafio final, a secretaria do serviço. A senhora séria atrás do balcão pede sempre uma das senhas, não há como fugir, não abre exceções.

Se for depois dessa hora o controlo já não é tanto e às vezes há espaço para uma atenção especial, um abrir de porta com carinho. Finalmente, depois deste longo caminho, quando a porta se abre e a máscara nos é estendida, voamos até ao quarto certo. Quando vemos o nosso doente toda este burocracia é esquecida em 3 tempos. Importam os minutos seguintes, as gargalhadas, as novidades e cada segundo daquela meia hora que passamos ali. Quando saímos já nem nos lembramos de como entrámos, mas não esquecemos as memórias que trazemos, nem a parte do coração que lá deixamos.

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