O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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O último Natal

O último Natal

Às vezes achamos que a vida é triste. Às vezes achamos que a vida é mesmo mesmo triste e que a tristeza consegue ser tal que é impossível voltar a sorrir, pelo menos num futuro próximo. Mas a vida surpreende-nos e os que gostam de nós surpreendem-nos ainda mais. Este Natal foi um desses casos. Um mês antes começou a ansiedade de pensar neste dia, o aperto no coração ao escolher fazer tudo igual, passar o Natal em família longe de Lisboa e deixar o pai sozinho. Escolhemos o presente, escolhemos o pai na certeza de que podia ser a última oportunidade para isso. E o que podia tender a ser uma noite de últimas coisas, de angústia, tornou-se numa noite de recomeços, de vida.

Fui para casa do pai mais cedo e fiquei a preparar as entradas na cozinha, enquanto lhe fazia companhia. Falámos, rimos e ouvimos música. As manas chegaram pouco depois com o jantar e muitos miminhos preparados com carinho pela nossa família e amigos. Os olhos do pai brilharam de alegria ao ver as suas iguarias preferidas. Rimos, contámos histórias e recordámos momentos bons. Jantámos sem pressa e o pai repetiu todos os pratos, coisa que não acontecia há meses. Depois do jantar, foi altura dos presentes. Demos abraços, rimos muito e o pai estava mesmo feliz. Quando o relógio bateu as e 11:00 da noite, começou a ficar impaciente, tinha atrasado ao máximo a toma dos medicamentos todos que o faziam dormir, mas já começava a sentir a sua falta.

Despediu-se de nós, feliz, e foi dormir prometendo que no dia seguinte estaríamos juntos outra vez para almoçarmos. Fomos embora e pela primeira vez em muitos meses desci as escadas daquele prédio quase em passo de dança, feliz, agradecida, em paz. Mais tarde, na missa, o padre dizia que o Natal vinha da fragilidade, porque tal como Jesus nasceu no caos de uma estalagem, quando ninguém estava preparado para o receber, também na nossa vida tende a vir ao nosso encontro quando estamos frágeis. Quando nos rendemos à vida e aceitamos que não é possível vivê-la sozinhos, que não somos auto-suficientes, que precisamos dos outros e que os outros precisam de nós. E este Natal foi isto mesmo. Foi um aceitar de ajuda de tantos lados, com gestos que parecem tão pequenos, mas que para nós foram gigantes.

Foi sentir colo e num último mês onde a solidão foi palavra de ordem, onde muitas vezes pareceu deixar de haver caminho a fazer, receber uns sapatos novos para a estrada que ainda há para fazer. Um dia o pai não vai estar cá e no meio do caos de um natal alegre para tantos, vou sentir uma tristeza profunda e uma saudade que não se explica. Mas acredito que vão ser estes dias, estas memórias deste Natal, que vão ficar no coração, que vão atenuar as saudades. E por isso hoje durmo descansada e pela primeira vez em muitos meses, nas minhas orações, não pedi nada, agradeci tudo. 24 dezembro 2023

Este foi o último Natal que pudemos passar com o pai. Fomos levadas ao colo pela nossa família e amigos e com muita alegria vivemos um Natal que vamos lembrar sempre com carinho. Este ano, o pai já não mora aqui e sentimos um vazio enorme que ainda estamos a aprender a preencher. À procura de um Natal mais leve, apanhámos um avião para o outro lado do mundo e escolhemos viver estes dias juntas e de coração aberto, permitindo-nos sentir tudo. Tenho a certeza de que vai apanhar boleia de uma nuvem para nos fazer companhia. Vai ser a estrela mais brilhante que vemos da janela e fazer do nosso coração a sua nova casa.

Era uma quinta-feira. Fui visitá-lo depois da Madalena. Atrasei-me e só cheguei ao hospital perto das 6 da tarde. Encontrei-o agitado, com uma máscara maior e umas grades de ferro na cama que não percebia para que serviam. Apesar do cansaço, reconheceu-me. Pediu-me várias vezes que lhe dissesse os valores do oxigénio que apareciam no televisor ao lado da cama. Dei-lhe a mão, gelada, e conversei em voz alta. Não me disse muita coisa, mas tenho a certeza de que ouviu tudo. Contei-lhe que tinha comprado um blazer novo de adulta e como estava o tempo lá fora. Disse-lhe que estava a pensar fazer um gap year, mas que ainda não sabia a fazer o quê. Garanti-lhe que a médica me tinha dito que bastava os valores do oxigénio subirem um bocadinho para poder

ir para casa, pelo que só tinha de aguentar mais um ou dois dias naquele quarto de várias camas e televisões que apitavam ao segundo. Já tinha passado mais de uma hora e naquela ala eram demasiado restritos com as visitas. Apertei-lhe a mão com força e disse que gostava muito dele. Prometi voltar no dia seguinte e que íamos falando por mensagens. Sorriu, e disse que também gostava muito de mim. Saí do quarto e procurei uma enfermeira no corredor. Pedi-lhe para falar com um médico para saber do estado clínico do pai. Mais uma vez respondeu-me que não estava nenhum disponível, pediu-me que voltasse no dia seguinte. Implorei-lhe que me dissesse alguma coisa, era o meu pai e há 2 dias que não tínhamos notícias concisas. Abanou a cabeça e pediu desculpa.

A minha mãe estava lá fora: “Queres passar nos cuidados paliativos? Pode ser que saibam mais alguma coisa.” Descemos as escadas e batemos à porta da unidade onde o pai melhor foi tratado durante a doença. A Dra. F. recebeu-nos apreensiva: “A última informação que recebemos, há 2 dias, foi que o pai estava só a repor os níveis de oxigénio para voltar para casa. Sabe quanto tempo vai demorar?” – perguntei inocentemente. “Minha querida, o seu pai não vai voltar para casa, lamento imenso.” “Não vai o quê?” – perguntei em choque. “A situação está muito feia.” “Quanto tempo?” – perguntei a medo “Não sei, podem ser dias ou semanas” – respondeu. “Obrigada Dra… e desculpe….” – disse entre soluços.

Era das primeiras vezes que chorava em frente dos médicos. Desta vez não me preocupei com isso. Despedimo-nos da médica e saímos dali em silêncio, em choque: “Querem voltar lá acima?” – perguntou a mãe. “Não, o horário das visitas já terminou e já gastámos as duas a que tínhamos direito hoje. Amanhã voltamos e pedimos mais informações à médica.” – respondi pragmaticamente, tentando relativizar o que acabara de ouvir. Se fosse assim tão grave tinham-nos chamado para nos despedirmos ou levantado as regras das visitas, não é? Era o que estava na lei. Voltámos para casa de olhos perdidos no infinito. A mãe chamou os nossos amigos e jantámos todos lá em casa com muitos petiscos bons e muitas gargalhadas.

No fim, ao som da guitarra cantámos e rezámos pelo pai, fazendo-lhe companhia sem sabermos. Fui deitar-me perto da 1 da manhã com uma dor insuportável no peito. Comentei com a minha irmã, disse que sentia o mesmo. Dormi agitada a sonhar com telefones a tocar e notícias dadas de repente, a noite pareceu interminável e mal consegui descasar. Acordei, no dia seguinte, perto das oito da manhã, não sei se com um telefone a tocar, se com as lágrimas vindas do corredor. Corri para a sala, vi a mãe ao telefone, senti um baque no peito com muita força, soltei um grito e o mundo caiu. “O meu pai já não mora aqui” – susurrei. Não me lembro de mais nada.

1 ano. 1 ano desde o dia em que o chão caiu, em que perdi o norte e pela primeira vez vi alguém próximo ir embora. Há 1 ano a procurá-lo em fins de dia e a senti-lo perto nas ondas do mar. Há 1 ano a aprender a (sobre)viver ao luto e a tentar ser feliz nos tempos livres. Há 1 ano acordar de manhã inquieta com a falta de alguma coisa e a adormecer e pedir que esteja bem, onde estiver. Há 1 ano a voltar à idade dos porquês e a perguntar-me se no céu também há mar, amigos e carros para conduzir. Há 1 ano a perder-me de olhos postos no infinito a relembrar a quantidade de coisas que vivemos juntos em 6 meses. Há 1 ano a recordar o maior testemunho de amor que alguma vez alguém me vai poder dar.

Há 1 ano a bater o pé e a defender os doentes oncológicos em conversas difíceis na procura de uma doença mais leve e acompanhada. Há 1 ano a olhar para o mundo com um olhar mais calmo, mais atento e mais empático. Há 1 ano na esperança de que seja tudo um pesadelo e que volte a bordo de uma nuvem. Há 1 ano a conhecer outras pessoas que passam pelo cancro e a aprender a partilhar a dor. Há 1 ano a tentar viver outra vez. Já não mora aqui, na terra. Mas mora no céu, tenho a certeza. E por mais que as lágrimas ainda caiam, que o coração ainda doa e que haja dias em que as saudades vençam, sinto-o perto todos os dias. Vem comigo a todo o lado, sabe tudo o que faço e conhece-me melhor do que nunca. Só mudou de casa, agora tem um lugar reservado no ❤ céu e um lugar VIP no meu coração

Querido 2024, Soubeste ser um sem número de coisas, mas não posso deixar que vás embora sem te agradecer o quanto me fizeste crescer durante os dias tão diferentes, mas tão importantes que me trouxeste este ano. Foste escuridão profunda e alegria genuína. Foste dor e doses redobradas de amor. Foste fragilidade e força. Foste solidão e colo. Foste medo e confiança. Foste fim e recomeço. Chegaste e encontraste-me a flutuar num mundo que já não era o meu, onde todos os caminhos perderam as setas de indicação e se tornaram dolorosos. Foi nos projetos de voluntariado e na fé que me deste a força que precisava para suportar os primeiros meses,

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