estava a caminho de Coimbra para ver o concerto dos Coldplay. Lembro-me de ser pequenina e ouvir as músicas no carro com os meus pais e por isso também me lembro da frustração de não conseguir um bilhete quando foram anunciadas as datas em Portugal. Na verdade acabei por conseguir ir ao concerto na mesma porque me caiu do céu um bilhete uma semana antes , o que foi só mais uma prova de que até há um ano atrás tudo tinha solução, a bem ou a mal as coisas acabavam sempre por se resolver sendo só uma questão de mais ou menos voltas, mais ou menos esforço. Há um ano atrás a minha vida era ótima, estável cheia de projetos giros e amigos bons e a minha maior
preocupação na altura era conseguir fazer um estágio de verão num grande escritório e ter umas férias preenchidíssimas cheias de viagens, convívios de amigos e projetos desafiantes. Não desconfiava que 1 ano depois estas preocupações iam parecer formigas ao lado do elefante que estava prestes a chegar e a fazer tremer o chão. Por isso o concerto foi incrível, um shot extra de vida, de garra e de vontade de aproveitar a sorte grande de ter uma vida tão feliz. Saltei, cantei, gritei, dancei, aproveitei muito e o efeito durou mais do que uma noite. Pensei até que se todos os dias fossem como aquele seria feliz para o resto da vida.
Mas rapidamente a vida deu a volta, 10 dias depois estávamos com a capa de exames na mão a tentar perceber o que era um carcinoma pulmonar estágio 4. Os saltos e os berros calaram-se imediatamente e pareceu impossível alguma vez regressarem. A vida deixou de ser feita de confetis e fogo de artifício e a energia positiva escondeu-se demasiado bem entre o pânico e o medo. O concerto ficou esquecido e perdeu toda a importância ao lado do monstro que tinha chegado e durante semanas tudo pareceu escuro e sombrio. Nunca mais voltei a ouvir músicas dos Coldplay e senti que nunca mais iriam fazer sentido. 1 ano depois a rever fotografias encontrei esta e lembrei-me de que “Belive in Love” foi a frase que fechou o concerto que deixou Portugal ao rubro.
Na altura achei piroso, mas 1 ano depois reparei que este tinha sido sem saber o mote dos 6 meses seguintes de doença do pai. O amor foi e será sempre o mote, a referência e a marca que o cancro deixou em nós. Foi o motivo para lhe fazermos frente e não desistirmos nunca. Foi a medida da entrega que pusemos nos 6 meses dedicados ao pai e à família. Foi a marca que ficou para sempre no nosso coração e dá sentido às saudades. E foi o maior presente que o pai nos podia ter dado antes de ir. Foi, na verdade a melhor lembrança que levamos desta viagem e o verdadeiro motivo pelo qual criei esta página, para mostrar que é possível encontrar um lado positivo mesmo no momento mais doloroso e inspirar quem passe pelo cancro depois de mim a nunca desistir de o procurar mesmo nos dias mais difíceis.
É que o cancro tem um lado muito escuro, mas também pode trazer muita luz porque é uma moeda de duas faces sendo certo que a medida da dor é proporcional à medida do amor. Por isso faltam palavras para explicar aos que estão de fora não só a dor de de uma doença como esta, mas principalmente a quantidade inacreditável de amor que pode ser descoberta e alimentada no meio dela. Faltam palavras que traduzam a força de um apertar de mão na sala de espera enquanto as horas passam e a lista de exames se vai aproximando do fim. Faltam palavras que traduzam a alegria de abrir a porta de casa e ver um sorriso tranquilo de quem acordou sem dores.
Faltam palavras que traduzam o bom que é ganhar o hábito de dizer a uma pessoa o quanto gostamos dela e receber as mesmas palavras devolvidas com mais significado que nunca. Faltam palavras que traduzam os momentos pequeninos que de tão efémeros que são se tornam gigantes. Podem faltar palavras, mas uma coisa é certa no nosso caminho pelo cancro nunca faltou amor. Claro que a dor é muito grande e às vezes se faz sentir com muita força, como um vazio que nunca ninguém vai poder preencher. Mas das memórias felizes não se tiram só saudades, mas também uma paz muito grande que aos poucos vai tentando minimizar este buracão que o cancro deixou no coração.
Por isso, este devia ser o mote, hoje e sempre: “Believe in love” e por mais triste que seja a notícia, haverá sempre forma de encontrar algo bom no meio dela. 1 ano depois os Coldplay já não estão em Portugal, só dão na rádio. 1 ano depois o pai já não está na terra, só vive no céu. Mas sei que se continuar a acreditar no amor que teve e tem por nós e na viagem imensa que foram os meses de doença, os confetis vão voltar e a alegria vai aprender a conviver com a tristeza, não tomando o seu lugar mas aprendendo a viver lado a lado com ela, não deixando que o passado seja esquecido, mas garantindo um futuro livre que não fica agarrado à dor, mas sim a este enorme testemunho de amor.