O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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Internamento III — Saber inquieta, ver magoa

Internamento III — Saber inquieta, ver magoa

Internamento III Saber inquieta, ver magoa

Cheguei ao hospital, tirei a senha com a moleza de mais um dia. Estava confiante de que o pai não ia sair já, aliviada por ainda sobrarem dias para organizar a sua volta para casa e me convencer de que era um regresso seguro. As senhas demoraram mais do que o habitual, as cadeiras estavam todas cheias e eu não tinha forças para estar em pé. Sentei-me no degrau de pedra junto à parede como as crianças que se sentam nas montras das lojas quando estão fartas das compras. Chamaram finalmente o V79, levantei-me com passos não sei se rápidos se lentos e dirigi-me ao balcão, “Quem veio ver?” É filha?” “Sou sim”. Entregaram-me a senha e segui já com 20 minutos de atraso.

O elevador estava cheio e quase de propósito para tornar aquela jornada até ao piso 7 mais longa parou em todos os andares, incluindo os subterrâneos que eu nem sabia que existiam, como aqueles comboios insanos que param em todas as aldeias no fim do mundo até chegarem ao destino. Cheguei ao 7° piso e dirigi-me à secretaria, “o seu pai não está cá, foi fazer exames”. Já não estranho a resposta, o meu pai, que já acabou a escola há tanto tempo, deve ter ouvido mais a palavra exame nestas duas semanas do que na vida inteira. Sentei-me na sala de espera, onde tantos outros esperam para que a vida corrija os percalços que lhes põe no caminho. Uns já são conhecidos, somos diferentes mas dividimos a mesma ansiedade e por isso de repente parecem estar mais próximos do que muitos amigos .

de longa data. Uns desaparecem, ficamos contentes quando os vemos sair de mãos dadas ao seu doente, mas o coração aperta quando vemos camas de hospital passar a correr pelo corredor, seguidas de caras de choro e desespero. Hoje não foi um desses dias, felizmente, estava vazia a sala. Agarrei no telemóvel e pelo canto do olho vi passar um doente de cadeira de rodas, era careca por isso não podia ser o meu pai. Continuei de olhos vidrados no ecrã até que ouvi “Maria”, levantei o sobreolho, levantei a cabeça, era o meu pai. A minha garganta ficou seca de repente e o coração contorseu-se. Era o meu pai e estava careca. Mas a vida no hospital tem destas coisas, o tempo não espera por nós, não faz intervalos como os jogos de futebol para que possamos beber água e recuperar forças.

“Maria podes vir” disse o meu pai em modo rally na sua cadeira de rodas nas mãos de um enfermeiro que não tinha tempo para paragens. Respirei fundo, empurrei a porta que hoje me pareceu mais pesada e segui. Pelo caminho encontrei a L. , a enfermeira querida que sorriu com os olhos. Cheguei ao quarto, caras novas. Uma pessoa bem pode tentar criar empatia com os lugares que marcam as mudanças nas nossas vidas, mas nem os pacientes da cama ao lado permanecem, tudo vai. Procurei uma cadeira, hoje não havia, acho que foi de propósito. Mal tive tempo de me sentar, o pai começou a tossir muito e a ficar “mal disposto”. Pela primeira vez não aguentei, desculpei-me com um “vou só ali” e voei porta fora até à famosa sala de espera. Saber inquieta,, mas ver magoa. Explodi entre lágrimas

e soluços até os olhos ficarem embaciados como os vidros do carro em dias de chuva mas mais uma vez, a vida não nos dá tempo para processar, não tem tempo. O meu pai estava à minha espera. Respirei fundo, limpei as lágrimas e pus a máscara que sempre disfarçava os olhos inchados. Regressei com um sorriso “Então pai, como estás hoje?” , (começo a crer que estas idas ao hospital dão 10-0 a qualquer curso de teatro). “Estou bem, deram-me morfina por isso não sinto nada, só estou mal disposto”. A conversa não durou mais do que 5 minutos, vi os olhos do pai começarem a fechar-se como os bebés quando têm sono, estava cansado. “Olha pai e que tal descansares um bocado enquanto eu vou dar uma volta e comprar qualquer coisa para comeres. Tens fome?” “Um bocado, queria algo fresco, um sumo”.

Acenei mas acho que o pai já nem viu, adormeceu. Voei outra vez lá para fora, mas desta vez com uma missão, encontrar sumos e iogurtes . Voltei passado algum tempo com um sentimento de missão cumprida. Mas o pai ainda dormia e os médicos não o deixavam beber nada se não chá. Voltei para a sala de espera. A mãe chegou pouco depois, conversámos enquanto esperávamos pelo médico que há 1:30h andava de um lado para o outro, mas que pelos vistos queria falar comigo. Levou-nos para uma sala, inédito, tinham acabado as conversas de corredor. Não sei dizer o que disse nem sei medir o impacto que as suas palavras tiveram em mim. Sentia-me um robot, programado para receber informação e armazená-la, o tratamento de dados era tarefa para depois.

Ficarem apenas bem vincados na memória bocados de frases como “é a representante legal do seu pai”, “sei que só tem 20 anos”, “vai ter de se mentalizar”, “esteja atenta”, “higiene mental”, “a vida continua”, “pode mudar de um dia para o outro”. Ouvi tudo de olhos fixos no médico e entre acenares de cabeça. Saí igual a como entrei. Fiz uma paragem no quarto do pai para tentar organizar os próximos passos, tentar dosear o que o pai queria e o que era digno dar-lhe. Estava nas mãos dos outros porque tudo o que prometi não dependia de mim, se calhar fiz mal. Expliquei ponto por ponto (omitindo só as vírgulas mais pesadas) o que tinha dito o médico. “Obrigada minha acessora preferida” respondeu o pai com um sorriso. Despedi-me com conselhos de mãe. Voltei a percorrer o corredor e deixei o hospital.

Estava cansada, tinha sido uma tarde bem longa. Mas dias amargos merecem sempre um final doce, por isso acabámos a tarde nos croissants, para confortar a barriga e aquecer o coração, depois de notícias tão geladas.

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