O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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Carta ao Pai Natal

Carta ao Pai Natal

Querido Pai Natal, Escrevo-te de uma casa onde o Natal sempre foi uma altura de alegria, com muito barulho e agitação, mas onde este ano, e desde que o pai deixou de morar aqui, passou a ser vivida a um ritmo um bocadinho diferente. Sabes, Pai Natal, é que chegou aquela altura do ano em que me apetece transformar-me num urso e hibernar até janeiro. As emoções desinstalam o coração, as saudades chegam em força e a vontade de viver o Natal desaparece. As luzes lá fora iluminam a noite, mas este mês, sem o pai, fica mais escuro. O entusiasmo à minha volta é gritante, mas mais do que nunca só me sinto bem no silêncio.

Os anúncios ilustram histórias comoventes, mas a mim comove-me o suficiente saber que o meu pai já não mora aqui. Todos se juntam para criar boas memórias, mas eu sinto-me sozinha, presa na nostalgia. A árvore de Natal fica cheia de presentes, mas, por dentro, sinto o coração vazio. Fica o silêncio e o vazio, a saudade e a nostalgia, ficam muitas vezes lágrimas e suspiros mais profundos, fica uma vontade gigante de recuperar uma alegria que tende a esconder-se especialmente nesta altura do ano.

Sei que tens muitas casas para visitar numa só noite, muitas crianças para surpreender e muitas famílias para consolar, mas aqui ficam algumas coisas que acredito que me iam ajudar a fazer caminho e a viver esta altura do ano, que é sempre um bocadinho mais difícil, de forma mais leve: 1.EMPATIA – para que a minha tristeza seja acolhida com respeito e não me sinta forçada a viver uma alegria que ainda não consigo sentir com o coração inteiro. 2.PACIÊNCIA – para as minhas reações mais ariscas e o meu humor mais difícil quando as saudades vierem em força e me sentir o Grinch. 3.CRIATIVIDADE – para continuar a sentir o meu pai presente na noite de Natal, ainda que já não more aqui.

4.MIMINHOS – para consolar a tristeza e preencher o coração, que em luto fica mais vazio. 5.PAZ – em relação à doença e ao luto, para conseguir olhar para tudo isto com um olhar novo e mais positivo, fazendo o amor crescer para além da dor. 6.LIBERDADE – para sentir tudo e não ter vergonha de esconder as lágrimas dos outros. 7.COMPANHIA para me sentir menos sozinho. 8.TEMPO – para viver o Natal ao meu ritmo com os avanços e recuos que forem precisos, de ano para ano. 9.COLO – para que a dor possa tornar-se mais leve ao ser partilhada. 10.VOZ – para lembrar todos aqueles que não veem a alegria bater à porta nestes dias, mas antes uma saudade enorme e uma vontade gigante de os passar à frente.

O Natal é uma altura do ano de grande alegria, mas para quem está em luto pode significar alguma tristeza. Por mais tempo que passe, a saudade não passa e o coração não desiste de querer dar mais um abraço, ter mais uma conversa ou aproveitar mais um jantar. Por isso são ainda mais importantes os miminhos em doses redobradas. Não precisamos de presentes, mas que nos ajudem a viver um Natal mais leve, com tempo, com calma, lembrando que já não mora aqui, mas que no nosso coração vai estar sempre sempre presente

O diferente Natal Neste Natal a casa acorda sem cor, as luzes tremem, cansadas de brilhar, há um silêncio vestido de dor, onde antes bastava o teu nome chamar. A mesa é a mesma, mas falta calor, o riso perdeu-se no ar da sala vazia, cada enfeite carrega um peso maior, e o tempo dói mais nesta noite fria. O mundo apagou-se num lento cansaço, o brilho caiu como neve sem chão, cada memória é um frágil abraço que fere e consola o mesmo coração.

Porque esta dor funda, que insiste em ficar, não é só ausência nem puro sofrer, é prova viva de um amor sem par, de alguém que partiu, mas se recusa a morrer. Enquanto o Menino Jesus dorme no presépio, há outra presença a velar este lar, não se vê com os olhos, vence o tempo, fica connosco, senta-se a amar. Perdemos-te, sim, no gesto e na presença, no lugar exato onde estavas sem falhar, mas ficas inteiro na nossa consciência, num amor que a morte não soube quebrar.

A tua partida, dura e brutal, uniu-nos num nó que não sabíamos dar, fez da família um lugar mais igual, onde ninguém caminha sozinho no ar. Que a tua memória não seja apagada, nem esta ferida fingida de não existir, há que viver a dor, consciente e sagrada, para aprender, mesmo assim, a seguir. Pai Natal, escuta este pedido final: faz crescer este amor, sem medida ou fim, dá força à família neste Natal desigual, para não odiar o dia só porque o perdi. Que aprendamos a viver este Natal inteiro, sem fugir da falta, sem negar a dor, porque ao sentirmos o vazio verdadeiro, sentimos também, mais perto, o teu amor. Francisco Ferreira

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