Ontem decidi arrumar o quarto, foram sacos e sacos para o lixo e outros tantos para dar, tudo para preparar esta nova fase de começar a trabalhar e torná-la mais simples, mais leve. Fui passando por ti ao longe, entre bilhetes de bailados a que fomos, canetas e coisas que trouxemos da Disney, bilhetes de avião de uma ida a Londres…, sorri, tudo memórias boas. Mas no fim, quando já só faltava uma gaveta, depois de horas e horas a “destralhar”, como diz a mãe, encontrei uma caixa enorme cheia de fotografias antigas, a maioria ainda em negativos. Passei por tudo, pela tua adolescência, pelas festas e férias com amigos, pelo teu casamento, pelos meus primeiros anos de vida… passei por tudo e custou-me que não tivesses passado cá mais tempo.
Vasculhei a caixa várias vezes, numa sede de encontrar mais e mais, como se cada fotografia fosse mais uma peça do puzzle que foi a tua vida, que tanto quero conhecer e tão pouco quero esquecer. Impressiona-me o facto de teres vivido tanto em tão pouco tempo e continuo, orgulhosa, a acreditar que aproveitaste mais os teus 53 anos do que muitos aproveitam uma vida inteira. Houve tempo para (quase) tudo o que te deixava feliz e isso descansa-me. 1 ano e meio depois, racionalmente, já sei que já não voltas, que a tua casa agora fica bem acima das nuvens, mas ainda é estranho pensar que durante tanto tempo a tua vida, a nossa vida foi tão normal, tão despreocupada como em todas aquelas fotografias.
Ficam perguntas e uma vontade gigante de poder sentar- me ao teu lado com esta e muitas outras caixas no colo, a falar sobre cada coisa, cada fase, cada pessoa que se cruzou contigo. Por isso, hoje acordei com (mais) saudades, com uma vontade tamanha de fazer esticar o tempo e de lhe pedir para te deixar morar aqui mais um bocadinho. O coração ficou mais mole, os suspiros tornaram-se mais pesados e o vazio sentiu-se mais profundo. Mas há que continuar a fazer caminho, por isso, vou continuar a refugiar-me no colo dos que te conheceram e me ajudam a manter-te vivo para além das fotografias, nas muitas histórias contigo, que relembram com carinho, na forma mais atenta com que olham por nós e na paciência que têm para os dias mais tristonhos.
E por isso está tudo bem, pai, continuamos bem, não te preocupes. São só coisas minhas, são tudo saudades nossas.