Um grito e o mundo apagou, as lágrimas começaram a cair sem parar e o corpo tornou-se vazio. Senti depressa o abraço do T., das manas, da mãe, mas nenhum abraço parecia ser colo suficiente para abraçar aquela dor. Alternámos os silêncios com comentários amigos e ficámos mais de uma hora a digerir a notícia. Mal sabíamos nós que dali a pouco começaria a verdadeira maratona. Vestimo-nos. Tínhamos de ir ao hospital buscar as coisas do pai e falar com os médicos. Fizemos pela última vez aquele caminho que durante 6 meses tinha sido o nosso dia a dia. Olhei pela janela, continuava tudo igual, só eu parecia estar bem diferente. Estacionámos o carro e cruzámos a porta principal daquele edifício gigante. Os médicos continuavam
atarefados, os doentes continuavam a exibir rostos tristes e o barulho das senhas continuava a ser monótono. Atravessámos os longos corredores brancos e chegámos ao piso 8. Empurrei a porta sem força e dirigi-me à secretaria. Antes existia ali, afixado na parede, um papel com o nome de todos os doentes daquela ala. O meu pai era o último da esquerda. Procurei o papel com o olhar, mas o seu nome já não estava lá. Foi o primeiro choque de que aquela notícia começava a tornar-se real e a passar as fronteiras da nossa casa. Depois aconteceu tudo muito rápido e não foi como nos filmes. A médica “aceitou” falar connosco durante 2 minutos, a correr. Disse-nos num tom indiferente que não podia fazer nada e que o pai tinha morrido. Olhei-a nos olhos tentando explicar-lhe que precisava de mais…
“tinha estado tranquilo?”, “tinha dito alguma coisa”, “tinha sofrido?”… “porque é que ninguém nos tinha chamado para nos despedirmos”, “porque é que há 1 dia estava só a repor níveis de oxigénio antes de ir para casa?”… À medida que as perguntas iam saindo, o tom impaciente da médica ia aumentando. Enervei-me, comecei a chorar. Era o meu pai, que tinha ido embora sozinho, sem nós, num quarto de hospital atribulado com mais não sei quantas pessoas que lhe eram desconhecidas. Senti uma impotência gigante e uma dor aguda difícil de explicar. A médica encolheu os ombros e despediu-se de forma fria. Nós deixámos o hospital, voltámos para casa e começámos a maratona de logísticas chatas a tratar.
Avisar um, avisar outro. Procurar uma empresa que tratasse de tudo (felizmente não conhecíamos nenhuma). Escolher pormenores que nunca pensámos terem de ser escolhidos. Marcar datas para as cerimónias, encontrar um coro, ligar a um padre… um sem fim de coisas, coisas que doíam e pareciam irreais. As mensagens depressa começaram a chegar, de todos os lados, de tantas tantas pessoas. Líamos algumas na diagonal do ecrã do telemóvel, sorríamos comovidas e prometíamos responder a todas mais tarde. Depois a casa encheu-se de pessoas, que iam e vinham, ora para dar um beijinho, ora para deixar um miminho, ora só para estar, para fazer companhia. Durante 3 dias não cozinhámos absolutamente nada, as refeições chegavam sem pedirmos e o colo fazia-se sentir de uma forma muito presente.
No meio do caos, o coração corria acelerado, num misto de emoções. Por um lado, precisava de ter sempre alguém por perto, por isso comovia-se sempre que via mais um amigo a cruzar a porta de surpresa. Por outro, sentia, de repente, uma tamanha necessidade de se desfazer em soluços para a qual não parecia haver espaço no meio da confusão que se instalara em casa. Depois os dias foram avançando e fomos voltando à normalidade. A vida voltou à rotina para o mundo, apesar de continuar de pernas para o ar para nós. As mensagens foram caindo cada vez mais espaçadas, apesar do carinho dos que nos eram próximos e o colo inicial foi diminuindo, enquanto a dor crescia. Era o fim dos primeiros dias.