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O que ninguém nos diz sobre o luto

O que ninguém nos diz sobre o luto

O luto não se mede em dias, meses ou anos. O luto é para a vida toda, podemos é aprender a domesticá-lo, para que não nos domestique a nós. O luto não é só perder a vida de quem nos era querido. O luto é perder a nossa própria vida e aprender a viver uma nova, porque a que conhecíamos até então, não volta, não volta nunca. O luto não é uma cor escura. O luto é muitas vezes vezes a ausência de cor, mas também pode ser uma mão cheia de cores ao mesmo tempo porque traz muitas memórias coloridas, que chegam sem aviso, entres saudades. O luto não se faz. O luto vai-se fazendo, com muitos avanços e recuos e é como uma obra inacabada. Há sempre uma pincelada que vai sendo feita ou uma

nódoa de tinta que cai sem querer, mudando constantemente o quadro. O luto não é uma checklist de sentimentos que é obrigatório viver por ordem. O luto é dono de si e pode manifestar-se de formas muito diferentes em cada um. O luto não “melhora” com a passagem do tempo. O luto é como uma peregrinação, daquelas em que, por vezes, só depois de muitos quilómetros é que começam a aparecer as bolhas mais dolorosas. O luto não é sempre triste. O luto é o responsável por fazer cair muitas lágrimas, mas às vezes também nos faz recordar momentos bons com mais carinho e até mesmo um sorriso.

O luto não é sinal de força. Quando chega à nossa vida pela primeira vez, desarma-nos, de repente, e é capaz de nos tornar bem mais frágeis. O luto não segue o relógio. O luto guarda os acontecimentos todos num saco e agita-o rapidamente. Por isso sentimos tudo fora de ordem e há coisas que já aconteceram há muito tempo, que se sentem à flor da pele e há momentos que acabaram de acontecer, mas parece que o tempo os separa de nós de forma bem longínqua. O luto não vem com quotas de sofrimento dependendo do grau de parentesco. O luto é sentido com intensidades diferentes, que nem sempre têm a ver com a árvore genealógica, por isso não é justo julgarmos e compararmos tristezas.

O luto não é nada disto para alguns. O luto pode ser tudo isto para outros. É volátil, como as ações da bolsa e por isso não merece ser limitado por linhas retas, é na verdade muito curvo. Todos passam por ele um dia, mas muitos só veem nele a noite. O luto é acima de tudo um caminho, não em estrada, mas em terra batida. Um caminho que não se faz descalço, mas com uns sapatos novos, daqueles que deixam bolhas e ficam apertados, no início. Daqueles que parecem não servir: não servem no pé, tal como o luto parece não servir na nossa vida, na vida que sempre levámos até ao dia em que alguém querido deixou de morar aqui. Para além de serem como os sapatos novos, desconfortáveis, há pedras que entram no sapato, que fazem doer, que magoam. E por isso, paramos tantas vezes, tiramos os sapatos, rogamos-lhe pragas e não queremos caminhar mais com eles.

Mas ao longo da viagem, à medida que vamos fazendo um esforço para não desistir e continuar a fazer caminho, os sapatos vão-se ajustando ao pé e ainda que as pedras continuem a chegar sem aviso e piquem os pés, como o luto pica o coração, vamos aprendendo a caminhar com mais paciência. Paramos as vezes que forem precisas e tiramos as pedras do sapato, uma a uma, confiando que mesmo que percamos muitas vezes o rumo e tenhamos de fazer muitas paragens, às vezes, até é possível aproveitar a viagem.

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