E se ?
Querido _____, hoje venho falar-te de uma das coisas mais difíceis de gerir numa caminhada pelo cancro, principalmente quando ela termina. Venho falar-te dos malditos “ses”, que chegam abraçados à culpa e gostam de nos infernizar a cabeça mais vezes do que deviam. É assustador como uma palavra tão pequena pode ter um impacto tão grande em nós, especialmente durante uma caminhada como esta , em que desconhecemos muitas vezes o solo que pisamos e em que por isso damos passos incertos, muitas vezes sem certezas de nada. Os “ses” são cruéis, são traiçoeiros. Trazem consigo um baú cheio de memórias e momentos marcantes e trocam-nos as voltas de uma forma muito dura, fazendo- nos duvidar de tudo, quando já nos sentimos suficientemente perto do nada.
Lembro-me da quantidade de vezes em que voltei para casa no fim de mais um dia de hospital, em que me atirei para o sofá exausta e em que começaram a surgir na minha cabeça um sem número de perguntas a bordo desta palavra traiçoeira. Lembro-me do aperto no coração e de me sentir confusa e perdida no meio de uma estrada com tantas saídas, mas tão poucas placas de indicação. Lembro-me de recapitular cada minuto do dia e tentar completar o puzzle de pontas soltas na minha cabeça à procura da resposta que devia ter dado, da pergunta que devia ter feito, do corredor a que devia ter ido ou da lei que devia ter desafiado.
Nestas alturas, as perguntas multiplicavam-se e o coração dividia-se entre todas elas. Sentia-me pequenina e punha em causa toda e qualquer decisão tomada. E se estes “ses” que me faziam sentir tão frágil quando voltava a casa durante os 6 meses da doença do pai, a verdade é que quase 1 ano depois de ter deixado de morar aqui, ainda me visitam várias vezes. E se tivesse perguntado de outra forma? E se tivesse batido mais o pé? E se tivesse levado os exames a outro médico? E se tivesse descoberto os sintomas mais cedo? E se tivéssemos arriscado um tratamento fora de Portugal? E se tivéssemos chamado a ambulância mais cedo? E se tivéssemos escolhido outro hospital?
E se tivesse feito mais um tratamento? E se não tivesse feito qualquer tratamento? E se tivéssemos estado lá quando foi embora, a dar-lhe a mão? E se tivesse desistido do curso para estar mais presente? E se o tivesse levado a ver o mar? E se….? São muitos “ses” e mais ainda são as pontadas de culpa que os acompanham. É um caminho sem retorno que nos leva lentamente a mergulhar na dor profunda. Sentimos que não demos o suficiente e procuramos em cada escolha que fizemos uma alternativa mirabolante que nos teria levado ao sucesso. Caímos depressa neste ciclo vicioso que nos faz esquecer muito depressa todos os “ses” positivos, todas as
escolhas que tomámos e resultaram em momentos leves, em momentos alegres. Gostava de ter o segredo para não teres de passar por eles. Mas se queres que te diga, eu própria ainda estou à procura dele. Mas a verdade, querido ________ é que não somos videntes, nunca o vamos poder ser. Gerimos as coisas com os recursos que temos no momento e damos o nosso melhor mesmo quando nos sentimos totalmente perdidos num caminho tão confuso e exigente. E por isso estes “ses” não merecem as nossas lágrimas. O cancro não é culpa tua. Nem tua nem de ninguém. Fizeste tudo, Fizemos tudo. E a verdade é que “se” não foi suficiente, não foi por falta de esforço.
E por isso quando a cabeça começa a dar voltas e o coração fica pequenino agarrado às saudades tento fugir dos “ses” que não segui e relembrar com carinho todas as coisas boas que não teriam acontecido “se” o caminho tivesse sido diferente.