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Sim, eu vou ao psicólogo

Sim, eu vou ao psicólogo

Quando estamos perdidos e não sabemos o caminho, o gps é uma grande ajuda, recalcula a rota, alerta para os imprevistos na estrada e diz-nos com exatidão o tempo de chegada, a duração da viagem. O cancro infelizmente deixa qualquer gps baralhado por isso quando a viagem começa a ser a bordo desta doença não há conta kilómetros disponível nem previsão de chegada, muitas vezes não sabemos sequer onde vamos chegar… Passamos por isso a viver em piloto automático, vamos cruzando as ruas uma a uma (dia a dia) com base no nosso instinto tentando escolher o melhor atalho para fugir aos estragos da doença. Viajamos sozinhos no meio do caos infernal do trânsito, mas do outro lado do vidro dos restantes carros ninguém faz ideia do quão perdidos andamos, do quão ansiamos que o gps volte a funcionar.

O meu caminho começou exatamente assim com uma notícia bomba que destruiu o meu gps sempre tão certinho e detalhado. No início senti-me perdida e sem saber que direção seguir, mas felizmente tenho uma mãe super despachada que em vez de se focar no problema rapidamente me ajudou a procurar a solução. Andar sozinha sem rumo só me faria andar em círculos por isso era altura de pedir ajuda, não ao gps mas a alguém humano, com uma sensibilidade especial para o tema que me pudesse guiar ou pelo menos acompanhar nesta longa caminhada. Lá em casa ir ao psicólogo sempre foi uma coisa tão banal como ir ao oftalmologista porque a dor da alma sabe ser tão ou mais incapacitante que uma dor na vista.

Aprendemos desde cedo que o psicólogo não é o médico dos malucos ou dos fracos. Na verdade, maluca teria ficado eu sem esta ajuda que em vez de me fazer sentir mais fraca me deu tanta força. É que por mais apoio que tenhamos dos amigos e da nossa família por detrás desta doença escondem-se emoções só nossas, o medo do amanhã, a saudade do passado e a ansiedade do presente são constantes por isso faz falta alguém que nos ajude a desconstruí-las e a perceber no meio do caos qual é o caminho menos caótico a seguir. Por isso todas nós fomos acompanhadas por psicólogos individualmente e logo desde o diagnóstico. No meu caso foi mesmo essencial. A fase da negação durou algum tempo por isso não conseguia acreditar

na gravidade da situação do meu pai, pensei até ao fim de agosto que as coisas iam melhorar rápido e que por isso ir de erasmus era perfeitamente possível, pensei que na minha família tudo se resolvia sempre por isso era impensável este caso ser uma exceção. Pensei que estava preparada para viver a dureza dos dias de forma inquebrável e serena com o meu sentido pragmático. Pensei isto tudo, mas ainda bem que mesmo assim fui à psicóloga. Com a doutora F. consegui viver os 6 meses de doença com uma lente mais positiva de quem aproveita a migalha de bom que pontua um dia muito mau. Consegui de forma subtil dizer tudo aquilo que queria, recuperar sentimentos antigos e transformar uma relação um tanto conflituosa na relação mais bonita que levo para a vida.

Consegui deixar a “Maria” de 21 anos continuar a viver no mesmo corpo que a “Maria” cuidadora porque o olhar atento da F. me obrigava a manter as coisas importantes da minha vida e me perguntava com todo o interesse do mundo como é que EU estava. Se calhar são coisas pequenas que parecem óbvias a quem está de fora. Mas quando estamos no olho do furacão qualquer ajuda é enorme e neste caso foi esta ajuda que me salvou depois na fase do luto. Hoje estou triste, continuo triste… mas não ficou em mim uma única ponta de arrependimento porque tenho consciência de que com este trabalho a duas consegui dizer e fazer tudo o que queria. Hoje continuo a viver, a sair de casa, a pensar no futuro porque tive alguém que puxou por todas essas coisas que me

agarram à vida mesmo quando a doença parecia consumir todas elas. Hoje não me sinto tão sozinha porque sei que naquele consultório tenho uma grande companhia que sabe compreender a dor, mas não deixa que ela vença. Hoje o cancro faz parte da minha história mas tenho a certeza de que não quero que seja A minha história. Por isso, querido ________ não olhes para o psicólogo como o recurso último que não queres usar. Acredita que se for o primeiro te poupará muitos cabelos brancos e até mesmo traumas mais complicados que se podem manifestar mais tarde. Não tens mesmo de passar por isto sozinho por isso se puderes dá uma oportunidade a esta ajuda enorme que salva vidas.

Sei que infelizmente para muitos ir ao psicólogo é um luxo e por isso essa hipótese nem sequer entra na equação, não imaginas o quanto isso me deixa triste o quanto gostava de um dia poder mudar esta injusta realidade. É que ir ao psicólogo é tão importante como ir ao dentista, ao oftalmologista, cardiologista e a todos os outros médicos. E numa altura em que a saúde mental começa a ser mais valorizada é urgente acompanhar esta campanha de sensibilização aumentando os recursos que a assegurem. Deixo-te alguns contactos nos destaques das histórias para consultas (pagas e pro bono) caso sintas que faz ❤ sentido pedir ajuda

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