O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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O malabarista de circo

O malabarista de circo

O cancro. Antes estas 6 letras compunham apenas uma palavra que só entrava lá em casa a bordo de uma notícia triste sobre a vida de alguém longe e as conversas nunca duravam muito tempo. Lembro-me de ter tido alguns casos na escola, de chegar a casa impressionada e confusa e de comentar com os meus pais “A mãe da X está com um cancro muito muito grave… A professora de matemática deixou de dar aulas, está careca… O irmao mais novo do Y está muito doente” E de nessas alturas me passar pela cabeça “E se fosse a nossa família?” O coração palpitava logo mais rápido e ficava um ambiente desconfortável. “Ai que horror! Não vamos pensar nessas coisas.” costumava ser a resposta que ouvia. Depressa mudávamos de assunto e procurávamos alguma coisa para distrair o coração.

E o cancro era só isto. Um palavrão cheio de força. Um tema tabu em que não valia a pena falar, como se o sofrimento se passasse por osmose. Uma doença muito muito feia que afetava alguns azarados de forma tão arbitrária como o Totoloto afetava os sortudos. E por isso, estas histórias, vividas até relativamente perto, eram sempre vividas bem longe. Ainda não me passava pela cabeça o que aquelas famílias estavam a passar e o quão impossível era para elas afastarem a realidade com distrações banais do dia a dia e abraços apertados. Depois a doença do pai apareceu e a notícia passou a ser diferente. “O MEU pai está com um cancro muito grave e tem meses de vida.” A partir daqui esta palavra nunca mais foi a mesma.

Aprendi muito depressa que fugir dela tinha deixado de ser opção e por isso era preciso fazer caminho com um misto de garra que se vai buscar não sei muito bem onde e humildade que se vai aprendendo a ter aos poucos. Na verdade, em 6 meses, o cancro deixou de ser um bicho papão para passar a fazer de nós um malabarista de circo. Em vez de três bolas coloridas de plástico, deu- nos três coisas muito intensas que nos iam escapando das mãos em círculos tropeços enquanto as tentávamos gerir e evitar que caíssem ao chão. A primeira foi o medo, que chegou a bordo do diagnóstico e só foi embora no dia em que dissemos adeus ao pai. O medo de um amanhã incerto, de uma chamada que não queríamos receber. O medo que nos tremia o sono durante a noite e que dava poucos dias de férias.

A segunda foi a dor. Um sentimento tão forte que nos conseguia deixar de rastos num instante. A dor de descobrirmos no olhar do pai um sofrimento que não merecia. A dor de o vermos apagar-se aos bocadinhos. A dor de passar dias no hospital a fazer perguntas otimistas enquanto as respostas eram tudo menos isso. E a terceira foi o amor. A mais especial de todas elas, a lufada de ar fresco durante a viagem e a bóia de salvação no meio da maré do luto. O amor que é muito difícil de pôr em palavras. O amor que não tem medida e não pode ser medido nem comparado com qualquer espécie de amor. O amor nos fez correr o mundo para arrancar gargalhadas ao pai durante os meses da doença. O amor que se constrói dia a dia e nasce de uma cumplicidade mais amiga do que qualquer relação de amizade.

Esta foi a bola mais colorida do malabarismo. É aquela que guardamos na mesa de cabeceira e no coração desde o dia em que deixou de morar aqui e a qual apertamos com força entre as mãos quando as saudades são infinitas. É a bola que nos veio provar que no meio da desgraca podem existir muitas graças, e que estas ficam para a vida toda. E por isso o cancro é muito mais do que o tema tabu de que ninguém quer falar. Deixa-nos cansados, é verdade, mas não passa por nós sem deixar nada de bom. Enquanto vamos rodopiando por estas três bolas do circo, enquanto aprendemos a ser autênticos malabaristas, a vida vai continuando e o cancro vai descomplicando. Tal como os malabaristas vamos apanhando os truques e fazer as três bolas girar no ar passa a ser o nosso grande talento.

Querido ________, sei que muitas vezes o cansaço te tolda a vista e por isso à tua volta só consegues ver o medo e a dor. Mas acredito que o que vivemos com o cancro não é uma guerra, mas sim um caminho. E em qualquer caminho, por mais buracos que existam, por mais perdidos que estejamos e por mais sombrio que possa parecer o trilho mais a diante, há sempre algo de bonito que podemos apreciar, pelo menos um amor infinito ❤ que em nós vai sempre morar

O cancro virou o nosso mundo de pernas para o ar. Chegou de repente, sem bater à porta. Instalou-se muito rápido, sem pedir licença, e levou uns quantos sonhos que tínhamos espalhados lá por casa. Fez-nos correr a maratona, sem sabermos se chegávamos à meta e, na verdade, muitos vão pensar que nunca a alcançámos. Eu tenho a certeza de que no cancro há muitas metas e que no nosso caso, ainda que a cura não tenha sido cruzada, curou-nos o amor e o testemunho do pai durante a viagem. Desde que o cancro passou a fazer parte da nossa família, a vida nunca mais foi a mesma e, apesar de tudo, ainda bem. Agora tem mais valor, agora é vivida com mais energia, agora aprendemos a procurar nela só o essencial, agora vivemos mesmo com letra grande.

As saudades são gigantes, mas sabemos que não mora aqui, mas mora mesmo perto, num cantinho de céu que é só seu e de onde acompanha a nossa vida para sempre. Claro que nem tudo é leve, na verdade, o cancro sabe ser bastante pesado, desumano. Leva uma parte de nós e às vezes os que da nossa vida fazem parte. Mas, mesmo quando parece tirar-nos tudo, é incapaz de nos deixar sem nada. Traz amor em doses gigantes, traz o perdão que muitas vezes fica esquecido a um canto, traz um olhar novo sobre vida e sobre o que realmente importa, traz mais fé aos que nela acreditam e traz sobretudo uma história que habita os corações de quem dela é protagonista.

Ontem foi o dia mundial do cancro e tantos partilharam o seu caminho. Que bom seria se todos os dias fossem dias de acompanhar quem caminha na doença e às escuras procura de novo a luz. Cancro, foste indecente, mas aos poucos vamos aprendendo a dar-te a volta. O que perdemos em saudades vamos ganhar em amor, prometo-te.

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