O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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O sol volta, prometo

O sol volta, prometo

[Hoje cruzei-me com uma pessoa que estava triste, uma pessoa que estava mesmo mesmo triste. Uma tristeza parecida a um nevoeiro cerrado que não dá sinais de ir embora. Escrevi esta carta para ela, mas também para todos aqueles que estão no meio de uma tempestade feia e não acreditam que o céu vai voltar a ficar azul.] .

Querida _______, Hoje cruzei o meu olhar com o teu e vi-o vazio. Tentei fazer-te rir, mas não descobri o teu sorriso fácil. Tentei desafiar-te para um passeio, mas faltou-te a força para saíres de casa. Tentei fazer o teu bolo preferido, mas de uma fatia tiraste só metade. Tentei contar-te novidades, mas não prestaste qualquer atenção. Tentei dar-te um abraço, mas não me deste outro de volta. Eu sei que o mundo corre lá fora e não espera pelo turbilhão de coisas que sentes aí dentro. Sei que à medida que o tempo avança, temes não saber avançar com ele e que é mais fácil deixares-te ficar para trás, com passos lentos que caminham sem motivo. Sei que, por vezes, em segredo, olhas à volta e tens vontade de amuar com o mundo por te sentires engolida por uma tamanha injustiça.

Sei que continuas a sentir um vazio no coração e que por mais que o tentes preencher com bocadinhos de tudo, ele se esvazia sempre de novo e sentes que nada pode substituir aquilo que te fugiu um dia. Eu sei tudo isso, mas gostava que Tu soubesses que essa tempestade, que sentes que perdura sobre a tua cabeça, é passageira, por mais escuro que esteja o céu e carregadas que estejam as nuvens. Também eu já estive aí, no meio desse túnel escuro onde sentes não haver uma lâmpada acesa, que te guie de novo à luz do dia. Também já perdi a vontade de correr, de sorrir e de viver os dias com letra grande. É normal, faz parte, principalmente quando nos vemos no meio de uma viagem tão emotiva como o cancro ou quando dávamos tudo para que essa viagem não tivesse acabado e levado alguém que nos era tão querido.

Mas, por mais que te pareça impossível, tens de confiar no velho provérbio “depois da tempestade vem a bonança” porque ela vem mesmo e começa a manifestar-se nas coisas mais simples, desde que abras o coração para a receber. Por vezes chega a bordo de um programa que tanto gostavas e que quiseste voltar a fazer. Outras de um abraço amigo que finalmente te permitiste receber, sem medo de com ele deixares à vista a tua fragilidade. Outras ainda através de uma conversa que ganhaste a coragem de ter e te ajudou a dividir a dor… Sei que custa, mas esta bonança vai chegar, ainda que devagarinho e a Vida vai ter ainda mais valor, porque vais aprender a estar mais atento ao essencial.

E até lá, querida ___________, não estás sozinha e a dor partilhada é bem mais leve de ser carregada. Não posso prometer-te que volte tudo, nem que as saudades não venham bater-te à porta mais vezes. Mas posso garantir-te que a dor profunda não dura para sempre, que as nuvens sabem dar tréguas e o sol, o sol volta, prometo.

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