Querido ________, Não sei como estás a gerir o turbilhão de emoções que o cancro traz, mas desconfio que muitas vezes te socorras da capa de super herói que está sempre à mão quando te cruzas com um amigo na rua, um familiar mais afastado ou mesmo um conhecido que não vês há muito tempo. Quando te perguntam como estão as coisas, sorris o dobro e não resistes a dar uma resposta simples e despreocupada. Desvalorizas o caos dos teus dias para não chocar, não preocupar, mas também para te tranquilizares a ti próprio porque à medida que vais tentando atenuar a gravidade das notícias para os outros, tentas atenuar também o impacto que têm em ti.
O problema é que os outros não vivem lá em casa por isso acreditam no que dizes e ficam descansados ou então sentem-te falar de forma tão otimista e esperançosa que passam a ver-te como um super herói que mesmo a lidar com uma situação chata é tão forte que continua visivelmente bem. No fundo admiram-te. E tu vais-te habituando a ter este papel de “faz tudo” invencível que até convence quem te vê, mas depressa se desfaz quando regressas a casa. Sei bem o quão desafiante é encaixar numa conversa de café a angústia do dia a dia de quem vive ao passo do cancro. Há muitas coisas que ficam escondidas, que guardamos só para nós. Torna-se difícil abrir o coração e dividir a tristeza com os nossos amigos porque parece não haver altura certa para interrompemos a conversa sobre os dias bons dos outros e desabafarmos sobre o caos que têm sido os
nossos. Por isso ao pé deles fazemos um esforço para sermos super-heróis. Construímos um eu que sabe carregar o mundo às costas e tentamos mostrar que jamais precisaremos de ser carregados ou então, com vergonha de mostrar que nos sentimos pequeninos, vestimos a capa para tentarmos passar despercebidos, não chamarmos a atenção. Escolhemos deixar as lágrimas e os desabafos para mais tarde por isso só em casa é que a capa cai. Mas aí cai mesmo, principalmente nas horas mortas, desocupadas, livres, quando tudo volta para o seu sítio, as pessoas voltam a casa, as tarefas aparecem feitas e o dia chega ao fim.
Sobramos nós e a mão cheia de pensamentos que tentámos afastar o dia inteiro, mas que teimam em voltar sempre. Assim, fechamo-nos em nós mesmos e sorrimos para o mundo enquanto choramos por dentro. Mas sabes ________, se calhar é importante a capa cair mais vezes e nem sempre em casa na solidão do nosso quarto, mas mesmo em frente aos que gostam de nós. Se calhar é bom sabermos ter estes momentos de descarga quase como as barragens. Se fecharmos sempre as comportas atrevemo-nos a atingir o limite de água e a chegar a um nível em que as paredes que nos sustentam já não aguentam mais. Por isso é importante saber dar espaço à tristeza e não engolir os soluços.
Não tenhas medo de deixar cair uma lágrima à frente dos outros, de admitir que não está tudo bem ou que estás cansado. Substituiu a pressão de ter de ser forte pela humildade de por vezes saber ser frágil. Porque os super heróis também têm coração e para salvarem vidas primeiro têm de salvar a sua. .