Querido _____ que estás agora a caminhar lado a lado com o cancro, ou querido ____ que ainda estás a digerir o fim de uma viagem tão agridoce como esta, sei bem o quão difícil pode ser acompanhar o ritmo do mundo quando passamos a viver a dois tempos. Sei que na teoria precisamos de exteriorizar a dor para aprendermos a partilhá-la e a tornar o fardo que ela carrega mais leve, menos pesado. Mas na prática às vezes parece impossível. Fica difícil ordenar as palavras de forma a que os outros as percebam mas não se assustem com o que sentimos. Fica difícil dizer duas frases sem que as lágrimas engulam as últimas palavras. Fica difícil explicar o quão diferentes nos sentimos e quão desligados do mundo parecemos estar apesar do sorriso forçado que vamos vestindo para não perdermos o comboio da vida.
Fica difícil, mas perante a dificuldade vamos arranjando estratégias inconscientes para conseguirmos sobrevivir à dor, para lhe darmos o espaço que merece, mas conseguirmos continuar a viver ao ritmo acelerado do dia a dia que não espera. Uma delas é a música. A música alivia, atenua, compreende. Não responde aos desabafos mas muitas vezes fala por eles, não abraça, mas em viagens de metro solitárias oferece mais conforto do que muitos abraços, não esconde emoções, mas organiza-as, não apaga a tristeza mas torna-a mais harmoniosa. Através das melodias mais paradas que nos dão o tempo que o mundo não nos dá para abrandarmos o ritmo e pensarmos na vida e as letras que direta ou metaforicamente parecem ter sido escritas só para
nós, vamos encontrando um sentido para a dor e para a tristeza em caminhadas a pé ao fim da tarde, reflexões ao deitar ou momentos mortos ao longo do dia. Deixamos de nos sentir os únicos a sentir a dor porque ganhamos a certeza de que pelo menos houve alguém que já passou pelo mesmo que nós e que sentiu as coisas tão imensamente ao ponto de as deixar dançar ao som de uma canção. Assim a música passa a ser a bengala que nos ajuda a dar os primeiros passos depois do choque da notícia da doença ou da partida para outro lugar daqueles que mais gostamos. Passa a ser a forma mais fácil de explicarmos a alguém o que nos preenche o coração e ao mesmo tempo a maneira que encontramos de manter viva a pessoa que foi embora.
Assim, querido ____, se tivesse de escolher um remédio milagroso para os dias em que a tristeza não vai embora, não hesitava em enviar-te a playlist que fizemos para o pai, que sabe ser colo, ombro amigo e um bocadinho de descanso para as saudades quando mais nada consegue descansá-las. E por isso, quando a rádio passa a “viagem” do Tiago Bettencourt e o resto do carro trauteia a letra despreocupadamente, do nosso lado caem lágrimas gordas num misto de saudade que não cabe no peito e comoção por saber que o pai foi embora mas continua a viver naquela e em tantas outras músicas. Fica a certeza de que cada vez que as cantamos o sentido das suas palavras não se fica pela terra, mas ao som da guitarra devagarinho ganha asas, chega ao céu.
“Voltarás um dia também, Com teus anjos fortes pelo ombro. Infinito amor em cada asa, ❤ De braços abertos para casa” Tiago Bettencourt – Viagem
Querido pai, Hoje farias 54 anos na terra, hoje fazes 54 anos no céu. O dia acordou como todos os outros, mas eu acordei diferente. O silêncio que tenho sentido desde o dia em que foste embora tornou-se mais profundo como se faltasse alguma coisa para além das típicas palavras. Hoje não apetece ver o dia passar, não apetece olhar para o calendário e perceber que o teu dia se tornou no mais vazio do ano. Hoje passam em revista todos os dias como este em que estiveste cá, enchem-me de alegria os que passei contigo à frente do pão de ló com natas e morangos, o teu bolo preferido e irritam-me os que escolhi estar longe, de férias. Hoje é um dia difícil.
Não ligavas nada ao dia dos teus anos, mas o ano passado este dia ligou-nos muito. Estávamos as 3 separadas entre campos de férias e semanas com amigos, mas assim que descobrimos o significado da palavra cancro decidimos que o tínhamos de passar todos juntos. Entrámos lá em casa com um almoço delicioso e o teu bolo preferido. Fizemos um caderno de capa azul bebé com fotografias, desenhos e mensagens dos anos que vivemos contigo. Lembro-me de olhar para aquele caderno antes de to dar e sentir um baque no peito, era o medo de supor sequer que aquele poderia ser o último presente seguido de um abraço teu. Foi um dia mesmo bom e por isso o dia de hoje custa tanto.
Sabes, pai, é que só/já passaram 6 meses. A maioria das pessoas acha que o luto é gradual, que o tempo só pode “ajudar”. Passaram 6 meses e eu acho que o tempo não “ajuda”. Pensava que gradualmente a dor ia acalmando e as saudades se iam tornando mais suportáveis, mas na verdade não é assim que funciona. O tempo ajuda porque nos obriga a voltar à vida, mas à medida que avança vai dando certezas do que significa o “para sempre” e isso dói muito. Mas o calendário não salta dias por isso é preciso aprender a vivê-los. Hoje fomos à praia, à mesma praia onde há cerca de um ano atrás decidimos ir passar o dia a seguir ao diagnóstico. Fizemos o teu bolo preferido na esperança de que daí de cima ficasses contente e sorrisses em raios de sol. Hoje vivemos as horas devagarinho recordando os dias bons e tentado sorrir com memórias boas.
Hoje gostava de te dar um abraço grande, escrever mais uma daquelas cartas sinceras a dizer o quanto gosto de ti. Gostava de ouvir as tuas piadas sobre a idade e o teu agradecimento de parabéns sempre na brincadeira. Gostava de ouvir o teu telefone tocar e ver a quantidade de pessoas que te iam ligar a dar os parabéns. Gostava de te ver trocar as velas e fingir que só fazias 45, hoje gostava mesmo que estivesses aqui ❤