Quando o cancro aparece para ficar, passamos a viver a dois tempos. O tempo dos outros e o nosso. Falamos das complicações da doença e das mudanças abismais na nossa vida, mas pouco dizemos sobre este tempo que passamos a viver permanentemente só connosco, pouco dizemos sobre a solidão. Os silêncios deixam de ser meras ausências de palavras e transformam-se em longos monólogos que temos sozinhos e que não devolvem respostas, só deixam perguntas. Uma viagem de metro, um passeio a pé, uma hora na sala de espera, tudo é vivido em constante diálogo interior porque o pensamento não descansa e a ansiedade não dá tréguas. Sorrimos por fora, mas perdemo-nos em divagações tristes por dentro e por mais que tentemos encontrá-las são poucas as palavras capazes de as transmitir aos outros.
Passamos despercebidos ao mundo ou então passamos a ser o centro de algumas atenções especiais, mas por mais que tenhamos pessoas à nossa volta, esta é uma doença que se vive de forma muito própria, às vezes muito solitária. É uma montanha russa de emoções gigante que muitas vezes nos leva num só dia a viajar pelas diferentes fases da vida e isso torna o nosso dia a dia muito específico, muito pessoal. Começamos por ir buscar a maturidade de um adulto crescido para gerir um sem número de logísticas que passam a ter de caber em 24 horas. Depressa essa maturidade se transforma na revolta contra o mundo de um adolescente quando não nos dizem nada sobre o futuro nem antecipam outras alternativas para o nosso problema.
Voltamos a casa e durante viagem passamos pela idade dos porquês deixando um sem fim de perguntas e dúvidas sem resposta enquanto vemos o sol desaparecer no horizonte e rezamos para o que o nosso sol contrarie a lei do dia e fique cá para sempre. Chegados a casa tudo nos irrita e a vontade de fazer uma grande birra como as crianças de 5 anos é tamanha. A nossa energia vai quase toda para todos estes percalços da doença por isso sobra muito pouca para os dramas normais do dia a dia. Às vezes temos vontade de gritar com toda a gente e se por um lado aprendemos a relativizar as pequenas coisas há dias em que nos sentimos tão perdidos e tão sozinhos que uma unha partida chega para nos fazer desabar.
E por isso nos silêncios, nos tratamentos, nas lágrimas, nas consultas, no medo, nas urgências, na saudade, na sala de espera, na incerteza, na fila da farmácia, no amor, neste caminho frente a frente com o cancro descobrimos o significado de uma palavra que talvez nunca tenhamos conhecido até então. Descobrimos o verdadeiro significado da solidão. Mas apesar de ser uma viagem só nossa, uma corrida em que somos o único corredor e que ninguém pode correr por nós, pode tornar-se mais leve se tivermos alguém por perto que nos faça sentir que não estamos (tão) sozinhos.
Por isso para ti que chegaste agora ou já carregas alguns meses ou anos desta doença que é o cancro, para ti que te sentes sozinho e pensas que ninguém te compreende, para ti que perdeste a esperança e te sentes envolto em dias mais escuros, para ti que tens medo do futuro, mas não podes deixar de viver o presente, para ti que tentas ser positivo, mas às vezes também precisas de colo, para ti que és forte, mas davas tudo para não ter de o ser, lembra-te que apesar da dor ser uma coisa muito tua que ninguém pode viver por ti, aprender a dividi-la com alguém não impede a solidão, mas pode mesmo tornar esta viagem ❤ bocadinho menos solitária