Querido ________, Sei que é difícil ver o calendário avançar, mas sentir que a tua vida pouco avança. Sei que te sentes sozinho, desconectado do mundo. Vês todos os teus amigos com novas metas e mil propósitos para o ano que agora começa, mas metas para ti perderam o interesse quando a única coisa que vês ao longe é o milagre da cura, da paz, do fim do sofrimento de quem te é querido. Sei que tentaste recomeçar, não só hoje, mas várias vezes ao longo dos últimos tempos. Respiras fundo e procuras agarrar a esperança que todos te encorajam a ter, mas que com as surpresas abruptas do dia a dia, com as chegadas às urgências fora de horas e exames que abrem portas mais escuras, nem sempre é fácil de encontrar.
Sei que o avanço do relógio te faz palpitar o coração por sentires que passa mais um ano, nesta corrida contra o tempo para o fazer esticar e aproveitar cada bocadinho com o coração inteiro. Sei que é uma altura de muita alegria e ruído, mas que, ultimamente, te sentes mais compreendido no silêncio e em ambientes mais tranquilos. Sei tudo isso. Que é difícil tentar avançar sem sair do sítio, que te sentes sozinho, que te esforças por recomeçar várias vezes, que tens medo do futuro, que precisas do teu espaço e do silêncio e que precisas de muito muito colo.
Por isso, não te deixo uma lista cheia de resoluções, bem longe daquilo que está à medida da tua realidade, mas sim 3 coisas que te podem ajudar a viver este ano com mais serenidade: Escolher ser um peregrino e não um maratonista ♂️ – avança devagar pelo caminho da doença e tenta aproveitar os bons momentos, ainda que pequeninos, com o doente, sem pensar na meta, que infelizmente não está do nosso lado controlar. Escolher ser uma formiga e não um polvo – está tudo bem se não conseguires chegar a todo o lado, nem é suposto. Às vezes precisamos de abrandar o ritmo, ou até mesmo parar e suspender algumas coisas, para conseguirmos estar inteiros naquilo que realmente importa. Não tentes fazer tudo ao mesmo tempo.
Escolher ser humano e não um super herói – pedir ajuda custa ao início, mas pode tornar o caminho pela doença mais leve. Esperar num corredor de hospital torna-se menos solitário quando temos um ombro amigo.