Querido _________, Sei bem que os últimos tempos têm sido difíceis. As idas ao hospital multiplicam-se como piolhos. As esperas nas cadeiras azuis são cada vez mais demoradas. As boas notícias minguam como a lua. Os comprimidos acumulam-se, cada vez mais iguais e com nomes esquisitos. Os efeitos secundários deixam de vir só no Google. As novidades não seguem o rumo certo. E as dores, as dores são mais dolorosas, doem-te mais a ti. Os afazeres multiplicam-se, a ansiedade cresce e tentas, por isso, fazer crescer a energia e a prontidão, ainda que o cansaço seja cada vez mais notório. À medida que segues caminho, tentas chegar a todos estes desafios, procurando uma postura otimista e vencedora, de quem quer ser polvo e chegar a todo o lado, num mar agitado cheio de correntes fortes.
Mas por mais que dês o máximo, por mais que te entregues de coração inteiro, não consegues chegar a tudo, resolver tudo, gerir tudo. É que por mais que tentes ser Super no tanto que fazes pelo teu doente, não te podes esquecer de que és acima de tudo Homem. Lá fora todos incentivam a que sigas caminho com confiança. Chamam-te de forte, elogiam a tua persistência, mas, sabes, às vezes é mesmo preciso deixar cair a capa. Ninguém merece fazer este caminho sozinho e carregar o sem número de dias pesados, às costas, sem pausas para descanso. Por isso, querido _______ pelo teu doente, por ti, peço-te: aceita repartir um bocadinho da tua dor com os outros, aceita e pede ajuda.
Aceita o café que há tanto tempo insistem contigo para tomar. Aceita a boleia para o hospital que te pode dar um dia de descanso. Aceita os miminhos que tentam adoçar a amargura dos dias mais difíceis. Aceita um ombro amigo para chorar sem vergonha. Aceita. Salvar vidas não está na certeza de se ser invencível, mas na coragem de se ser frágil, por isso deixa cair a capa, (não) tens de ser super herói, pelo menos sozinho.
FOTO – Dia de anos do pai
Querido pai, Hoje o calendário diz-me que é o teu dia, mal sabe ele que desde o dia em que voaste para o céu, todos os dias passaram a ser um bocadinho teus. Hoje acordo mais devagar, respiro mais fundo e perco- me mais vezes nos pensamentos, nas memórias boas dos teus dias que passei contigo. Hoje o silêncio tem uma voz diferente, mais tua. Não incomoda tanto porque te sinto mais perto, porque preciso de te sentir mais perto. Hoje caminho mais distraída, usando o coração como bússola e a tua estrela como norte. E assim, prendo os olhos lá em cima, na tentativa de apaziguar esta falta que me fazes cá em baixo.
Hoje a mãe fez o teu bolo preferido porque hoje vai ser sempre o teu dia, um bocadinho mais do que todos os outros dias. Não sei como se conta aí no céu, se também há bolos e festas grandes, mas eu cá continuo a contá- los a todos, pai! E já são 55! Hoje cai uma lágrima mais gorda. Mas não te preocupes. Eu não estou triste, tenho só um bocadinho mais de saudades, mas elas acalmam, pai, vão acalmando. Hoje enchemos o dia de coisas boas, petiscos de que gostavas, a praia que era a tua segunda casa e muitas conversas sobre ti. Tudo na esperança de que o dia seja mais alegre e que o coração doa um bocadinho menos.
Hoje… hoje é a segunda vez que o bolo não tem velas, mas já não deixo que este dia apague a minha alegria. Sei que não podemos estar juntos, mas que daí de cima sentes a nossa companhia. Sei que não consigo abraçar-te, mas que me abraças a mim em raios de sol. Sei que não consigo ver o teu sorriso, mas que deves estar imensamente feliz. Sei que temos ainda mais saudades, mas que vamos aprendendo a viver com elas, dia a dia. Parabéns, pai! Ainda não descobri a morada certa para onde devo enviar esta e as tantas cartas que te escrevo, ❤ mas sei que moras perto, sempre sempre perto