Chega sem aviso e depressa se torna dono do tempo, sem dar tempo para descobrirmos onde encaixa na nossa vida. Esconde-se por detrás de nomes esquisitos, que nos deixam de sobrolho franzido perante o médico que os pronuncia, mas faz soar imediatamente o alarme do medo se o resumirem a 6 letras. Quando bate à porta, entra de rompante e não vem sozinho, nunca vem sozinho. Traz consigo uma mochila cheia de tarefas e burocracias para arrumarmos nas prateleiras do nosso cérebro e depressa desarruma o nosso coração, que passa a viajar num vagão de uma montanha russa cheia de loopjngs. Faz do hospital a nossa segunda casa, dos profissionais de saúde a nossa grande esperança e dos vizinhos de sala de espera os nossos cúmplices de caminho.
Faz cair muitas lágrimas gordas e o coração palpitar ao ritmo do medo de um amanhã incerto, mas é nos pequenos momentos de alegria com o nosso doente que nos dá certezas de que o mais importante não vai embora, fica sempre. Faz da nossa vida um filme de suspense, sem nunca nos mostrar o trailer. Enche-nos de ansiedade e chega a levar-nos ao limite, mas depois de passarmos por ele pouca coisa nos limita. Desafia-nos a ver a vida de outra perspetiva, com mais calma e com um olhar mais atento aos outros e aos pequenos detalhes. E se nos mostra o quão frágil é a vida, não deixa de mostrar o quão forte pode ser o amor. É tudo isto e pode não ser nada disto ao mesmo tempo, já que é dono de si e nos troca as voltas quando lhe apetece. Pode ser difícil de definir, mas não podemos deixar que defina a nossa vida.
Acima de tudo, divide a nossa vida ao meio. Se por um lado traz um lado escuro, a preto e branco, por outro faz-nos passar a apreciar mais a cor. Este podia ser o mote de uma adivinha, mas infelizmente a reposta é quase imediata. Ontem foi O dia mundial do cancro, mas as famílias que passam por ele vivem-nos muitos outros dias. Que nunca deixe de ser um recordar de que é preciso fazer caminho, de que ainda há mesmo muito caminho a fazer e de que cada um pode fazer parte. Para que não seja só uma palavra da qual fugimos a sete pés, mas um caminho onde o medo é apaziguado pelo amor e a empatia ajuda a minimizar a dor.