Cheguei ao hospital e atravessei o interminável corredor estreito onde um sem número de pessoas corria em contramão, em direção a um dos milhares dos gabinetes daquele edifício enorme. Esquivei-me com rapidez pelas batas brancas, pelas cadeiras de rodas empurradas sem força, pelos rostos de olhos vazios e pelos mínguos sorrisos, que pontuavam, felizmente, alguns casos de sucesso. Bati à porta da ala de cuidados paliativos. Empurrei-a, cumprimentei a enfermeira que passava por mim, atarefada, e perguntei pelo meu pai. Apontou para uma porta branca de uma sala pequenina. Lá estava o meu pai, sentado na sua cadeira de rodas. Sorriu, cansado. Perguntei como estava. Respondeu que tinha febre, mas que estava tudo bem. Lá vinha mais um antibiótico e umas quantas visitas às urgências pelo meio, previ.
Perguntei à enfermeira D., sempre muito querida, pela doutora F. Há muito que não tinha uma conversa com um dos médicos do meu pai nem notícias do prognóstico. Passados alguns minutos, entrei no consultório. A doutora F. estava sentada à secretária e olhou para mim, inquieta, como se não soubesse bem o que esperar daquela conversa. Já eu, estava otimista. Era verdade que ultimamente as visitas ao hospital se tinham tornado mais recorrentes, que as esperas nas cadeiras azuis eram mais demoradas, as punções cada vez mais frequentes e as doses dos medicamentos fortíssimos que o pai tomava para a dor, mais expressivas, mas, no geral, sentia que o pai estava melhor, ou pelo menos que não piorava.
Enumerei o sem número de conquistas que ia registando na gaveta das coisas boas. Contei-lhe que o meu pai se levantava da cama alguns dias por semana, que descia a rua para tomar um café comigo, de vez em quando, e que há uns tempos até tínhamos conseguido almoçar à mesa. Podia ser o cancro a ser imprevisível, como diziam os médicos, mas para mim era o pai a dar-lhe a volta com a sua vontade desmedida de se agarrar à vida. Por isso, estava menos agitada, lá no fundo, sempre soubera que na nossa família as coisas se resolviam sempre e, neste caso, parecia que devagarinho também se iam resolvendo. Infelizmente, a resposta da médica, naquela tarde gelada de dezembro, pouco aqueceu o coração. Pelo contrário, foi um balde de água fria. O pai não estava “melhor”, na verdade, segundo a médica, a situação complicava-se a cada dia.
Hoje compreendo que, por vezes, não é o prognóstico que melhora, mas nós que atingimos uma capacidade de adaptação à mudança tão grande que passamos a sentir uma certa normalidade nas más notícias, tendendo a desvalorizá-las e a olhar para os gestos pequenos como se fossem grandes vitórias. Quando a vida dos que nos são queridos fica presa por um fio, quando a doença já perdura e o cansaço se mistura com dores de crescimento, entregamo-nos por inteiro a uma busca incessante de ver o sol brilhar ao fundo e fica difícil traçar esta linha ténue entre o que vemos e o que queremos muito ver. E por isso é tão difícil dosear a esperança e a realidade, garantindo que não mergulharmos na descrença, mas também não criarmos expectativas que infelizmente não podem ser cumpridas.
E por isso, quando a médica disse que o prognóstico piorava a cada dia, quase num jeito de choque por eu não ser a primeira pessoa a notar isso, o meu coração ficou pequenino como uma noz: 6 meses. – disse a médica (que na verdade acabaram por ser 2 semanas). Engoli em seco e saí do consultório, de olhos brilhantes, demorei-me alguns segundos no meio do corredor a tentar digerir aquela informação. “6 meses era muito tempo, até lá tínhamos muito a fazer e quem sabe muita coisa podia mudar”. Respirei fundo e voltei para junto do meu pai. Então, o que disse a médica? – perguntou o pai esperançoso, mal me viu. Nada de especial, que era só mais um vírus chato que rapidamente se resolve. – respondi com um sorriso forçado. – Bem, já é tarde, vamos para casa!