O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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Querido pai, cheguei a Timor

Querido pai, cheguei a Timor

. Há um mês, com as minhas 3 malas, o coração apertado e cheio de medo lá vim eu sozinha para o outro lado do mundo. Acho que depois de me ter despedido de ti para sempre estas despedidas temporárias se tornaram um bocadinho mais fáceis. Aprendi a relativizar as ausências e a ser grata por poderem ser momentâneas. Vim para aqui a saber que volto e isso tem ajudado a consolar as saudades. Cheguei há um mês e aqui é tudo diferente, sabes pai? Há pobreza e algum lixo. A cidade nunca conhece o silêncio e o pó que se levanta nas ruas turva a vista. O ar está sempre húmido e o calor é grande. Não gostavas nada de calor, não sei se te ias habituar se me

viesses visitar. O trânsito é muito confuso, conduzem ao contrário e as motas atravessam a estrada sem regras, 4 a 5 por faixa. Acho que ias ficar orgulhoso por saber que já me aventuro na estrada. Quem diria! Eu, que tantas aulas tive de ter contigo para passar no exame de condução, a conduzir uma mota sozinha. Claro que me faltou o teu apoio e me fizeram falta as tuas dicas e elogios, mas acredito que aí de cima continuas a guiar o meu caminho, simplesmente de uma forma mais discreta. Mas nem tudo são desafios e coisas difíceis, pai! Nesta cidade caótica também há um lado muito positivo! Foi aqui que vi o pôr do sol mais bonito da minha vida, sobre o mar tranquilo que rodeia Díli. Foi aqui que pude contemplar da areia a imensidão do oceano Índico sem nada à frente, distinguir as nuvens que

tingem o céu de cor de rosa e sentir a paz de um fim de tarde tranquilo sem mil coisas para fazer, responsabilidades e obrigações. Foi aqui que depois de meses de muito stress, dor, tristeza e angústia pude finalmente respirar de alívio e voltar a sentir-me “eu” outra vez. Sinto que estou a viver um sonho tão bom que às vezes preciso que me belisquem para ter a certeza de que estou acordada. Ainda estranho a ausência de responsabilidades pesadas e há dias em que parece que tenho demasiado tempo livre. Mas na verdade estou a gostar do alívio de não ter de passar diariamente em sítios que doem e de poder viver os dias devagar, à minha maneira, à maneira de uma miúda de 21 anos.

Eras uma pessoa destemida, que conduzia rápido, que vivia a vida de forma intensa, livre e com os pés e o coração no presente. Em Díli estou a aprender a viver também assim. Com o frio na barriga cada vez que me ponho em cima de uma mota, a coragem de viver os dias devagar sem antecipar os que aí vêm e a adrenalina de me permitir sentir livre sem quaisquer planos para o futuro depois destes 6 meses. Tudo isto me tem aproximado de ti. Não tenho dúvidas de que se vim, se experimentei e se fiquei foi porque aprendi contigo a enfrentar os desafios com confiança, tal como enfrentaste, enfrentámos o cancro. Nos teus últimos seis meses de vida, mostraste-me que a vida é demasiado efémera para deixarmos coisas por fazer por isso, tenho tentado aproveitar cada dia com alegria e vontade, sempre com um espaço para a dor, mas em busca de momentos leves leves.

Claro que viver de forma mais calma e a um ritmo mais lento traz consigo um grande inimigo disfarçado, o tempo. É que agora, em Timor, não posso andar sempre a mil por isso não posso atirar-te para o dia seguinte ou ignorar tão facilmente as saudades. Aqui sou obrigada a viver os dias mais devagar e com isso a relembrar muita coisa que nos últimos meses tentei atirar para debaixo do tapete. Mentia se te dissesse que não há noites difíceis. Aqui, longe, começam a vir à memória as imagens, conversas e momentos dos últimos dias antes de deixares de morar aqui como se a minha cabeça precisasse de se afastar de casa para começar a arrumar as coisas. Começo com isso a destapar alguns buracos, a reviver alguns momentos e a sentir cada vez mais os sinais da tua ausência. Nessas alturas o coração fica do tamanho de uma noz e os suspiros são mais profundos.

A dor continua aqui, mesmo do outro lado do mundo onde tudo funciona ao contrário, as estações, os lados da estrada ou as horas. Resta-me tentar dar-lhe um sentido e com ele continuar a fazer caminho, confiante de que é possível continuar a viver o luto, mas permitir-me ser feliz nos tempos livres e aproveitar o lado bom desta grande experiência. No fundo, se tivesse de resumir estas primeiras semanas em Díli, diria que eram parecidas à viagem que fizemos pela doença. Encontrámos muitas motas em excesso de velocidade, muitos contratempos em contramão, um sem fim de buzinas que nos cansavam o coração e muito pó que nos turvou o olhar. Mas depois de atravessar todo o caos da cidade, descobrimos no amor que construímos juntos este pôr do sol mais bonito do mundo, que tal como o mar de Díli é impossível de ser esquecido e ganha um lugar especial no meu coração.

As saudades continuam a ser muitas, mas aqui, onde o mar é mais azul e o pôr do sol mais colorido lembro- me de ti ainda mais vezes porque te vejo em cada canto desta ilha onde agora vivo. Obrigada pai, por mesmo longe continuares a morar perto, mesmo perto. Obrigada Timor por num mês te tornares casa, ainda ❤ que a tantos km de casa

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