O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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Ser feliz nos tempos livres

Ser feliz nos tempos livres

Quando a dor passa a fazer parte da rotina. Quando os dias passam e mostram que não vão voltar atrás. Quando a vida dá sinais de que vai ter de seguir. Quando as datas começam a fazer semanas, meses e anos Ou quando a doença dura e decide não ir embora, tendemos a ficar na corda bamba. É que por maior que seja a dor, a saudade ou a frustração, os nossos olhos não podem passar a viver só de lágrimas, mas também nos parece injusto seguir em frente como se nada fosse. O luto, o choque, a notícia, o diagnóstico ou o tratamento não são coisas que se vivam de uma vez, vão-se vivendo e esta é das coisas mais difíceis de explicar aos outros.

Temos tendência para desenhar a régua e esquadro o espaço do sofrimento, a contar lágrimas e a definir prazos para a tristeza ir embora, a pensar que por ser recente ou ter passado já tanto tempo não podemos fazer isto ou aquilo. Tentamos arrumar as emoções e as memórias em caixinhas e relógios com ponteiros ríspidos, mas esquecemo-nos de que somos como uma balança, temos de procurar o equilíbrio e que este equilíbrio vem de tentativas e mais tentativas de dosear os dois pratos. Esta é a gestão difícil de fazer, esta é a gestão ainda mais difícil de explicar ao mundo. Um dia tem 24 horas, o sol nasce e vai embora todos os dias, mas a forma como vivemos a doença não é assim tão linear.

Tanto podemos acordar com vontade de mover o mundo imaginando uma vida cheia de propósito, como adormecer em soluços sem ver a luz ao fundo do caminho que de repente se torna tão escuro. Tanto podemos estar numa saída a noite com amigos a dançar em delírio enquanto pensamos no quão alegre estamos no momento, como passado meia hora podemos achar toda aquela barulheira uma infantilidade ao pé da dureza dos nossos problemas. Tanto podemos falar do pai com um sorriso tranquilo e uma paz que contagia, como desmanchar-nos em soluços quando ouvimos apenas a primeira letra do seu nome.

A dor e a alegria andam de mãos dadas todo o dia. Atropelam-se muitas vezes e deixam o coração confuso, mas se há coisa que aprendi ao longo desta viagem pelo cancro, é que não faz mal ir experimentando as duas sem medo de lhes dar o espaço que precisam. É uma viagem feita aos solavancos, em que o caminho não tem de ser sempre a subir, em direção ao topo. Há curvas, há buracos e há becos sem saída e está tudo bem. E por isso não faz mal passar um dia a chorar e a pensar no diagnóstico quando já corremos a maratona do cancro há meses e muitos acham que já nos “habituámos”.

Não faz mal chegar a um sítio onde sempre fomos e voltar para trás porque ainda ou já não conseguimos voltar lá. Não faz mal voltar a precisar de companhia durante a noite, quando já dormíamos sozinhos há meses. Não faz mal sentir saudades que já tínhamos aprendido a apaziguar. Tal como não faz mal sair à noite e gritar o quão feliz é a vida, não faz mal passar um dia sem nos lembrar-nos de quem está doente ou quem já não mora aqui. Não faz mal darmos umas boas gargalhadas de forma despreocupada. Não faz mal voltar a fazer planos para o futuro. Não faz mal confundirmo-nos com os outros na tentativa de termos uma vida banal outra vez.

A dor pesa, mas não tem de ser um peso. Por isso, querido _______ que infelizmente também tratas o cancro por tu, não deixes lágrimas por chorar por pensares que já viram passar o seu prazo de validade, mas não deixes gargalhadas por dar por sentires que ainda não é altura de voltar a sorrir. Vive a dor à tua maneira, com avanços e recuos, dias maus e dias melhores. Não há tempos certos nem errados, há o nosso tempo. Chora, chora tudo e deixa-te ser feliz ❤ nos tempos livres

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