O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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1 ano depois do cancro

1 ano depois do cancro

novembro 2023 Durante o cancro

Sou a Maria e tenho 21 anos. Em junho, a vida lá em casa deu uma grande volta e por isso os meus dias passaram a ser um bocadinho diferentes. Acho que eu própria me tornei numa pessoa um bocadinho diferente. Desde que as dores do pai começaram a ser mais fortes e as idas ao hospital mais recorrentes e imprevisíveis, tornou-se na minha última mensagem antes de dormir e na primeira ao acordar. Agora é um descanso quando acorda bem disposto e conseguimos completar um dia sem visitar as urgências. Infelizmente isto acontece poucas vezes por isso o Hospital de dia de oncologia passou a ser a nossa segunda casa. Apesar de me sentir bastante perdida no meio desta doença que não desvenda o seu fim, não gosto de desistir e tenho vergonha de pedir ajuda por isso acabo por fazer as coisas sozinha. Está a ser cansativo, mas acho que está a resultar!

Eu e Madalena dividimos-nos entre as salas de espera, as consultas, as compras dos medicamentos, a sua organização diária, os exames, as questões burocráticas na segurança social e os pedidos que vão surgindo e com o tempo, aprendemos a ligar o modo piloto automático e a fazer as coisas sem pensarmos muito nelas. No fundo ando sempre a correr e mais cansada, mas isso ajuda-me a não ter tempo para refletir sobre o estado grave do cancro do pai e a fugir ao medo gigante de o ver ir embora aos bocadinhos. Supostamente, devia estar em Budapeste a fazer erasmus. Quando tomei a decisão de não ir, fiquei com muita pena, mas agora essa ideia parece-me uma autêntica utopia e fico aliviada por ter escolhido ficar por aqui.

Antes gostava muito de estar com amigos e fazer programas diferentes, mas agora falta-me a paciência , falta-me o tempo. Por isso estou sempre a desmarcar cafés, a inventar desculpas para fugir aos jantares e a adiar encontros. Os meus amigos querem ajudar-me e tentam aproximar-se, mas é tão difícil explicar-lhes esta nova rotina que o cancro trouxe, que acabo por escolher quase sempre os sorrisos para evitar perguntas difíceis. Estamos em fases de vida tão diferentes que parece que fica cada vez mais impossível encontrar pontos de contacto. Para além disso, tenho cada vez menos tempo para dar aos outros. A doença do pai consome-nos muita energia, por isso, quando volto a casa do hospital, depois de mais uma tarde nas urgências ou de um dia de quimioterapia sem fim, acabo por me fechar mais na minha família e na nossa vida.

Claro que continuo envolvida em projetos e grupos, mas não é a mesma coisa, tiveram de deixar de ser a minha prioridade e sinto que já não consigo estar inteira neles. No fundo, sinto-me desmotivada e triste por não poder mudar o rumo da doença do pai. Gostava de saber se algum dia vou voltar a sentir a alegria verdadeira e se é possível ser feliz no fim de uma doença sem solução, como a nossa. Até lá esforço-me para aproveitar ao máximo os dias em família e rezo para que ainda sejam muitos.

novembro 2024 1 ano depois do cancro

Sou a Maria, tenho 22 anos e este ano estou a fazer um Gap year. Há três meses vim viver para Timor para participar num projeto de voluntariado e planeio ficar cá por mais três. Não faço ideia do que vou fazer a seguir, a única coisa de que tenho a certeza é que quero aproveitar o resto do meu gap year para fazer algo diferente, que me ocupe a cabeça e me dê mundo. Tirei este ano para mim para me afastar da cidade onde vivi a viagem mais agridoce da minha vida e a onde ainda me custa muito voltar. Senti que precisava de uma pausa quando o meu papel como cuidadora do pai chegou ao fim e o pai deixou de morar aqui. Os dias começaram a tornar-se sempre iguais e as saudades instalaram-se em todas as ruas do meu dia a dia, lembrando-me do vazio que ficou no meu coração, por isso, deixei que a vida desse, mais uma vez, uma grande volta, mas desta vez a meu favor.

Em Timor é tudo diferente, não tenho de passar pelo hospital, pela casa do pai, pelo café a onde íamos todas as manhãs ou pela farmácia. Gosto disso, ajuda a aliviar a dor. Apesar de ainda me sentir a pairar num mundo novo e desconhecido por não ter o pai por perto, já há vários dias em que me levanto com vontade. Gosto de me dedicar ao projeto em que estou a trabalhar e vejo no trabalho uma forma de desviar o pensamento das saudades. Voltei a ter finalmente tempo livre, por isso, passo várias horas na praia a olhar para o mar. Foi a forma que encontrei de me sentir perto do pai e isso deixa-me tranquila. Relembro muitas vezes o caminho que percorremos juntos e tudo aquilo que vivemos nos 6 meses da sua doença e não há um dia que passe que não sinta a sua falta.

Tenho fases mais tristes em que as lágrimas correm sem parar, e fases mais tranquilas, em que a dor sabe dar tréguas e me deixa viver dias mais leves. Dizem que faz parte do luto, eu acredito, mas confesso que me sinto a bordo de uma montanha russa de emoções. Agora valorizo cada vez mais os finais de tarde, os pores do sol em silêncio e as paisagens bonitas e sinto que está perto em todas elas. Aos poucos tenho voltado a falar com os meus amigos e com novas pessoas que se vão cruzando comigo. As conversas banais já não me irritam tanto e tenho mais paciência para os programas em grupo. Às vezes até me divirto bastante e isso sabe muito bem, mesmo que ao fim do dia, quando a casa mergulha no silêncio, a saudade venha quase sempre reclamar o seu espaço.

Passou um ano. Muita coisa mudou, o pai deixou de morar aqui, terminei a faculdade e vim viver para o outro lado do mundo. Acho que eu própria mudei muito. Tornei-me numa pessoa mais sensível, mais frágil. Agora perco mais tempo ouvir os outros e comove-me quando confiam em mim e partilham a sua história de vida. Gosto de conversar com outras pessoas que já passaram pelo mesmo que eu e penso muito nos que estão a percorrer este caminho agora. Aprendi que a dor pode ser vivida de várias maneiras e que falar sobre ela pode ajudar a que nos sintamos menos sozinhos. Por isso peço mais vezes ajuda e não tenho vergonha de admitir que preciso dela.

Depois de o pai ir embora decidi criar o @janaomoraqui e com ele encontrei o meu novo propósito de vida. Quero dar voz às famílias que passam pelo cancro, para que deixe de ser um tema tabu e passe a a ser acolhido com mais empatia. Gostava que a nossa sociedade aprendesse a ser mais atenta à fragilidade dos outros e acredito que uma boa rede de partilha pode tornar o caminho pela doença mais leve, menos solitário. Claro que ainda há dias muito tristes e que ainda ando à procura do segredo para ser feliz, agora que o meu pai já não mora aqui. Mas a pouco e pouco acho que começo a descobrir os primeiros passos de um caminho onde a dor e o amor passeiam lado a lado, por isso talvez não seja impossível ❤

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