O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
ajuda

Sê forte, acolhe a fragilidade

Sê forte, acolhe a fragilidade

Quando embarcamos na viagem do cancro, quando vemos pessoas a sofrer nos corredores dos hospitais, quando sentimos na pele o que é depender de alguém para assegurarmos as necessidades básicas de quem mais gostamos e quando assistimos a uma degradação rápida e dolorosa dos que nos são próximos, a nossa postura na vida muda. É impossível não mudar. Abrandamos um bocadinho o ritmo que levamos e começamos a ver a vida de outra perspetiva. A certeza torna-se uma palavra pouco requisitada e passamos a sentirmo-nos menos donos da verdade, mas em vez disso seres pequeninos num mundo gigante, frágeis. O cancro faz-nos ganhar um respeito muito grande pela doença, pela vida e pelos outros e por isso deixamos de julgar os que nos rodeiam da mesma maneira.

Isto porque aprendemos que é muito fácil vestir uma capa de super herói e esconder entre a sua cor garrida e imponente um coração triste e perdido sem que o mundo facilmente se aperceba. Por isso, tendemos a perder mais tempo a compreender os outros, a sua história e o que levam no coração. Conhecemos a fragilidade de perto e por isso passamos a sentir uma empatia muito grande pelos que, em dado momento, se sentem mais frágeis. Tendemos a não fugir das conversas delicadas, a normalizar os temas tabu e a enfrentar as perguntas difíceis sem medo de ouvir a sua resposta. Isto porque guardamos na memória a dificuldade que tivemos em gerir tudo isto, geralmente, sozinhos.

Lembramo-nos de todas as vezes em que precisámos de falar, mas não quisemos impressionar os outros, em que quisemos chorar, mas tememos que se assustassem com as nossas lágrimas, em que soubemos que as coisas não iam correr bem, mas não quisemos quebrar a onda de otimismo que a maioria das pessoas tenta mostrar face às situações mais complicadas. E por isso, em vez de nos afastarmos dos momentos complicados, escolhemos mais rapidamente ficar por perto. Sabes, querido amigo, se tivesse de escolher uma coisa que aprendi com o cancro e que gostava que chegasse mais depressa aos outros sem que tivessem de passar por ele, era o dom de aprender a conviver lado a lado com a fragilidade. Com a nossa, mas especialmente com a dos que estão à nossa volta. Sem medo, mas com um coração aberto a saber toda a verdade, a sentir tudo e a estar perto quando os outros se sentem tão longe.

No início custa um bocadinho, não vou mentir, porque somos educados desde crianças a ser fortes e por isso tudo o que nos aproxima do lado mais sensível nos aterroriza. Mas depois, a vida torna-se mais genuína, acredita, porque ao acolhermos a fragilidade dos outros, sem medo de nos emocionarmos e mostrarmos também um bocadinho da nossa, descobrimos verdadeiramente o significado da amizade, que não serve só para os tempos de euforia, mas também e principalmente para os momentos em que a tristeza vem bater à porta. Por isso, querido amigo, peço-te: quando souberes de um diagnóstico na família de alguém que te é próximo: não te afastes dele, mas insiste para que estejam mais vezes juntos. Dispõe-te a ouvir o que tem passado sem medo de ficares sem palavras.

Não repitis que vai ficar tudo bem, nem racionalizes o processo. Mantém-te otimista, claro, mas sem ignorar as notícias menos boas quando elas são tão evidentes e dificilmente podem ser evitadas. Não te feches na tua realidade enquanto pedes para que nunca te aconteça o mesmo, mas tenta perceber melhor este tema do cancro para que não seja um elefante no meio da sala para a nossa sociedade. Não acredites num “está tudo bem” quando te é dito entredentes para evitar conversas profundas. Dá-lhe espaço se não quiser mesmo falar, mas deixa claro que estás pronto para ouvir, mesmo que não seja naquele momento.

Não tentes ao máximo evitar tocar no assunto para garantir uma conversa sem lágrimas, mas oferece colo para que não acabem por cair quando está sozinho. Não digas “o que precisares diz” quando sabes que a outra pessoa nunca vai ter coragem de pedir ajuda, mas propõe tu ajudar com alguma coisa concreta ou simplesmente estar presente em momentos pequeninos do dia que quando vividos sozinhos se tornam muito mais duros, como esperais no hospital, dias de resultados importantes ou tarefas chatas de adulto a tratar pela cidade fora.

Querido amigo, se calhar ficaste assustado com tantos pedidos, mas não te preocupes, ser amigo de alguém que passa pelo cancro deixa de ser um bicho de sete cabeças quando despimos a capa de super heróis e nos dispomos a caminhar lado a lado, de forma humilde e disponível, sem medo do que vamos ouvir, sem vergonha do que vamos sentir e sem receio do que não vamos saber resolver. Por isso, fica por perto, não fujas. Não tentes ser sempre ❤ forte, acolhe a fragilidade

Continua a ler

Outros conteúdos de Ajuda.

Capa do conteúdo “Ainda somos nós”
Ajuda

Ainda somos nós

Quando o papel de cuidador passa a ser o nosso papel principal, os outros papéis que costumamos ocupar acabam por se baralhar um bocadinho e às vezes fica difícil reencontrarmos o…

Ler
Capa do conteúdo “Fora de Horas”
Ajuda

Fora de Horas

Há alturas do dia em que a memória voa para longe, em que nos desligamos do mundo e vivemos a tempo inteiro para doença. A porta do hospital tem o poder ou a maldição…

Ler
Capa do conteúdo “Vai ficar tudo bem”
Ajuda

Vai ficar tudo bem

Quando o presente é cinzento e o céu está cheio de nuvens, acreditar num amanhã mais solarengo descansa a alma, acalma o coração. Por isso rezamos, pedimos, sonhamos, desejamos…

Ler