Quando o presente é cinzento e o céu está cheio de nuvens, acreditar num amanhã mais solarengo descansa a alma, acalma o coração. Por isso rezamos, pedimos, sonhamos, desejamos que fique tudo bem. Mas se para uns esta é uma mensagem de esperança, um mais cinco ou piscar de olho cúmplice que pode realmente dar mais coragem para o caminho, para outros, infelizmente, mesmo que muito bem intencionada, esta expressão perde a cor, torna-se vazia. É que às vezes vai não ficar tudo bem, pelo menos o “tudo”. As coisas complicam-se, os valores alteram-se, as probabilidades diminuem, as opções esgotam-se. E ninguém nos prepara para isto. Somos educados (e bem) para procurarmos sempre uma solução, mas pouco nos dizem sobre os casos em que não há
solução, pelo menos para todo o problema. E por isso, como falamos de sucessos, mas evitamos falar de fracassos, quando as coisas se complicam sentimo-nos ainda mais sozinhos. Os outros escolhem os conselhos otimistas para tentarem temperar a dureza do que se avizinha e de certa forma evitarem pensar no pior. E a nós faltam-nos as palavras para os convencer de que no nosso caso o prognóstico não é nada animador e por isso muito dificilmente a vida vai tomar o percurso em que querem que acreditemos. Não vai ficar “tudo” bem quando o tratamento é para a vida toda. Não vai ficar “tudo” bem quando as terapêuticas deixam de fazer efeito. Não vai ficar “tudo” bem quando não há vagas nos hospitais e as
filas de espera vão deixando passar os timings dos exames e tratamentos urgentes. Não vai ficar “tudo”bem quando ouvimos prazos de vida. Não vai ficar “tudo” bem quando nos pedem para estarmos preparados. Não vai. Ninguém está preparado para ouvir isto desta forma, pelo menos das primeiras vezes, mas às vezes é preciso dizê-lo com todas as letras porque é mesmo assim que nós é dito a nós, cuidadores, nos corredores dos hospitais ou nos consultórios frios. Por isso, por mais que custe, que seja duro ouvir, principalmente quando não estamos por dentro do tema, não cedas à tentação de terminar todas as conversas com um “vai ficar tudo bem”. Às vezes não vai mesmo, pelo menos o “tudo”, o sofrimento vai
teimar em ficar por uns tempos e esta frase não o consegue afastar, só torna maior a descrença num futuro como os dos contos infantis, “feliz para sempre”. Mas não ficar tudo bem também não é sinónimo de que fique tudo mal. Há sempre uma maneira de encontrar uma luz, uma coisa boa, um final agridoce neste caminho, por mais árdua que tenha de ser a procura. Por isso as mensagens de esperança são importantes, talvez nestes casos só tenham de ser um bocadinho diferentes. Mais do que prometer um final feliz, talvez o colo de que precisamos passe por acompanhar e ajudar na procura de momentos de alegria no meio de um prognóstico mais triste. Mais do que ansiar por notícias boas precisamos que estejam dispostos a saber ouvir as menos boas sem
ceder à tentação de ignorar a sua gravidade ou mudar de assunto com medo de ficar sem palavras. E se as palavras faltarem, se sentirem a dor e as lágrimas chegarem também aos vossos olhos, não faz mal admitirem sem medo que também não sabem a solução para isto. Não há maior demonstração de carinho e amor do que ter a humildade de querer partilhar a dor e isso só é possível quando nos dispomos a saber tudo, sem medo de não poder fazer nada. Porque com a coragem de aceitar estar perto, faz-se muito, faz-se tudo.