Agradeço muitas vezes a família e os amigos que tenho. Mas por mais que custe dizer isto e que seja cruel para os que estão à nossa volta, às vezes esta é uma doença tão solitária, que parece ser um caminho só nosso. Os outros podem ver esta corrida das bancadas, podem chegar-se à frente e pelas grades da maratona estender-nos uma garrafa de água ou um mais cinco, mas não podem correr por nós, por vezes duvido até que possam sequer correr ao nosso lado. Estamos habituados a consolar, a dar abraços e a transmitir confiança em situações do dia a dia, zangas com amigos, desavenças familiares ou corações partidos. Mas não estamos habituados a saber pedi-los e muito menos a saber dá-los em situações limite: Como podemos nós preparar alguém para uma coisa da qual desconhecemos o fim? .
É difícil explicar o que é passar a viver lado a lado com o cancro. É difícil explicar aos que estão à minha volta, aos que sempre estiveram, que continuo a ser a Maria, mas ao mesmo tempo tive de deixar de ser a Maria, pelo menos a Maria de há uns tempos atrás. É difícil explicar que a dor, o stress e a ansiedade não se encaixam na rotina diária como o pequeno almoço ou o lavar os dentes, são como um apêndice, estão lá sempre, simplesmente às vezes doem mais e outras menos. É difícil explicar que já não conseguimos marcar coisas com antecedência porque passamos a viver na anarquia das horas, com unexpected visitas de 8 horas às urgências ou consultas dia sim dia sim. Eu que era a pessoa mais organizada do mundo, cheia de agendas e horários deixei sequer de ter relógio.
E por isso as horas mais difíceis são aquelas que os outros menos imaginam. Custa o acordar, o saber que há mais um dia para viver e que ficar na cama não é solução. Custa o fazer o primeiro telefonema do dia e com o coração nas mãos ouvir a resposta à pergunta “Como estás hoje?” sabendo que pode chegar vinda de uma espadanada ao sol ou da sala de espera do hospital. Custa o responder a mensagens de amigos e resistir à tentação, que vence quase sempre, de um “está tudo bem”, “vai melhorar”, quando a vontade de dizer “não, não estou nada bem” é tamanha. Custa falar sem filtros porque o medo de preocupar e a preguiça de ter de consolar quem ouve parece ser maior do que a urgência de ser consolado.
Precisamos de tempo, precisamos de espaço, mas no fundo sabemos que não podemos ficar sozinhos. Temos vergonha de pedir ajudar, mas sabem, nunca precisámos tanto dela: • 6 horas de urgências tornam-se mais leves quando não somos os únicos na sala de espera e temos alguém com dividir a impaciência de esperar sentado horas e horas enquanto vemos a pessoa de quem tanto gostamos exausta e cheia de dores. • Um café nos arredores do hospital ajuda a passar as 4 horas de quimioterapia para as quais temos de fazer tempo por perto para podermos sair a correr para o piso de oncologia assim que o tratamento acabe e tentarmos ainda falar com a médica.
• Uma mensagem às 11 da noite consola as lágrimas de uma notícia triste recebida nesse dia e guardada entre as paredes do nosso quarto entre soluços. • Um café a dois, temperado com a coragem de perguntar diretamente como estamos, ajuda-nos a não alimentar a máscara que tendemos a vestir à frente dos outros e a aceitar que a dor pode ser partilhada principalmente com os que mais gostam de nós. Sabemos que às vezes pode ser duro assumir este papel de amigo que aceita dividir este peso connosco. Por isso mesmo tentamos ao máximo não incomodar. Não queremos que deixem de rir à gargalhada, mas agora não somos de gargalhada assim tão fácil. Não queremos que deixem de viver a vida 200km à hora, mas agora temos de abrandar um bocadinho.
Não queremos que deixem de sonhar o futuro, mas agora precisamos mesmo é de viver o presente. Não queremos estragar a vossa alegria, mas sem a vossa ajuda fica quase impossível lidar com esta tristeza. E por isso, da próxima vez que se sentirem encurralados, que vos faltarem as palavras ou a reação, lembrem-se de que é normal, nós também nos sentimos assim. Mas não se afastem com medo de não saberem como reagir e com a ideia de que por isso a vossa ajuda é indiferente. Não imaginam o quão importante é aquele abraço, mensagem fora de horas ou presença em silêncio, é o suficiente para nos fazer o dia! É que também é tudo novo para nós, também ainda estamos a descobrir este novo olhar, esta nova lição sobre consolar e sobre ser consolado.