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Ainda somos nós

Ainda somos nós

Quando o papel de cuidador passa a ser o nosso papel principal, os outros papéis que costumamos ocupar acabam por se baralhar um bocadinho e às vezes fica difícil reencontrarmos o nosso lugar nas outras coisas que também devem preencher o nosso dia, fica difícil sentirmos que continuamos a ter uma personalidade própria, uma vida nossa. A doença consome tempo, ânimo, energia e por isso no tempo livre, nas horas que sobram, ficamos muitas vezes confusos acerca do que queremos ou devemos fazer com elas. É como se estivéssemos sempre divididos. Por um lado queremos distrair a cabeça, continuar a viver como antes, estar disponível para os nossos amigos, saber desligar, voltar a sentir que temos uma vida leve, normal. Por isso tentamos continuar a alinhar

nos programas de amigos, nos projetos da faculdade e nas combinações grandes de família. Por outro não nos sentimos bem em estar muito tempo a fazer programas nossos porque sentimos que dessa forma estamos a ignorar o sofrimento que se vive em casa por isso recusamos uma saída à noite por perdermos a vontade de ir saltar para uma discoteca já que a alegria que sentimos não é verdadeira, é muito superficial e esconde uma tristeza muito grande. A indecisão é gigante e a culpa depressa se junta à equação. É que para além da vontade de fazer coisas não ser constante, a injustiça de ver alguém que nos é querido doente e sem poder viver a sua vida normal faz-nos sentir envergonhados e até mesmo culpados por continuarmos a viver a nossa. Por isso estamos sempre a mudar de ideias. Se numa altura do dia sentimos saudades de viver uma vida normal e por

isso aceitamos ir jantar com amigos nessa noite, na hora seguinte vem a culpa e nem nos apetece sair de casa. Aí começam as desculpas de última hora, os “nãos” entre dentes que deixam os nossos amigos confusos, desanimados e às vezes chateados com o nosso humor inconstante. Mas apesar de nem sempre ser fácil, acredito que é possível viver com o cancro sem deixar que ele engula o nosso “eu”. Às vezes só precisamos de uma dose extra de paciência dos que estão à nossa volta. Precisamos que não desistam de nós, mas que pelo contrário, puxem por nós. Que nos tirem de casa e que insistam para que não nos isolemos.

Precisamos que nos convençam de que por baixo da camada de preocupações, lágrimas e medos que a doença nos atira para cima, continua a haver uma pessoa que vale por si própria, que não está doente, que precisa de respirar e de viver momentos leves para contrabalançar os momentos de dor. Precisamos que nos ajudem ver que os nossos dons não passaram a restringir-se a suportar horas em hospitais ou a aprender nomes estranhos de medicamentos e as suas propriedades, mas que continuamos a ter muito para dar noutras áreas. Precisamos de sentir que os nossos sonhos ainda têm importância, ainda podem concretizar-se e continuam a interessar aos nossos amigos e família mesmo que o tema central para todos seja a

doença de quem nos é próximo e a necessidade constante de saber se o está a receber apoio suficiente. Precisamos que nos perguntem como é que NÓS estamos, mesmo que andemos sempre a fugir dessa pergunta e que nós próprios pensemos que isso pouco importa porque a prioridade tem de ser sempre quem está doente. No fundo sentimos que o nosso eu deixa de caber no nosso dia a dia devido ao espaço que o cancro ocupa. E por isso, por mais vergonha que tenhamos em pedir, por mais que nos custe admitir, precisamos da vossa ajuda para não deixarmos que o cancro nos engula, mas sentirmos que ainda estamos cá, que ainda existimos, que ainda somos nós.

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