Querido médico, Sei que o teu dia é provavelmente igual ao de todas as outras pessoas. Acordas de manhã e também apanhas trânsito para o trabalho. Deixas filhos na escola e perdes noites de sono com birras. Trabalhas das 9 ao infinito e anseias pelo descanso. E ouves doentes e famílias que reclamam de tudo, do SNS, do tempo de espera, do país inteiro. Sei que a primeira vida que viste ir embora te deve ter custado muito, mas que já não podes sentir as próximas com a mesma intensidade porque tiveste de vestir uma capa para conseguires ser feliz mesmo quando os teus dias estão cheios de histórias tristes. Sei que tiraste medicina, que provavelmente ganhaste imensos prémios e és o guru da tua especialidade.
Sei tudo isso, e na verdade tens razão. És médico de profissão e é isso que tecnicamente te é pedido. Mas sabes, os doentes precisam tanto da tua competência técnica como da sua sensibilidade humana por isso o que te pode distinguir dos outros é o facto de escolheres ser médico também por vocação. Percebo que nem sempre seja fácil e que atendas mil casos como o nosso todos os dias, mas tenho de te confessar uma coisa, querido médico. Deste lado há uma família que também trabalha todos os dias, que também atura birras à noite e perde horas no trânsito, que também dá o seu melhor nos estudos e tenta ser profissional em tudo o que faz, nesta família também há seres humanos iguais a ti! No entanto, esta família vive com um apêndice, chama- se cancro.
Sim, aquele que tanto estudaste em manuais da faculdade, que vês aos milhares nos exames que avalias ou que investigas em ensaios clínicos. Mas infelizmente ele não se fica só por aí porque esta família não o vê, não o estuda, não o avalia. Esta família sente-o. Não o pediu, não o encomendou nem o desejou. Se calhar até fez tudo para o evitar, vê lá tu! Mas acabou por chegar na mesma, sem bater à porta, sem aviso e sem manual de instruções. Chegou e não veio sozinho, trouxe com ele uma catrefada de coisas que não sabemos gerir, mas que temos de aprender a aceitar. É que agora, querido médico, já não é só o trânsito, as horas de trabalho ou as histórias tristes dos outros. Agora é a nossa.
São as ginásticas diárias para manter a vida passada e arranjar espaço nas mesmas 24 horas para as tantas tarefas presentes. São as lágrimas que correm sem parar quando o caminho aperta e a luz da esperança fica cada vez mais invisível. São os papéis e papelinhos que têm de ser entregues em todo o lado para garantir o que sempre demos por garantido. O cancro são estas coisas todas para nós, mas em muitos casos passou a ser apenas mais um número para ti. A culpa não é tua, pelo menos totalmente tua, mas sentimos que às vezes precisávamos mais da tua ajuda. Na verdade, entregámos uma vida às tuas mãos e depositámos em ti toda a confiança que tínhamos e mesmo aquela que nunca na vida pensámos ter. É que nós tentamos fazer tudo, mas às vezes desse lado chega-nos quase nada. Sabemos que não podes
Fazer milagres, mas pelo menos podes dar-nos informações mais concretas. Nós não estudámos medicina, não percebemos esses nomes complicados nem decorámos a lista de 50 complicações que podem surgir. Nós não fizemos nenhum curso de gestão de emoções por isso não estamos preparados para que nos digas de forma fria e despreocupada que o nosso pai, avô, tio, irmão, filho… só vai viver mais x meses. E estamos ainda menos preparados para que encolhas os ombros quando te perguntamos em desespero quanto tempo temos mais. Sabes, querido médico, é que nós não estamos habituados a lidar com esta doença todos os dias pelo que precisamos mesmo mesmo de ti.
Precisamos de ti para voltarmos a acreditar na vida e não termos tanto medo do futuro e por isso de informações realistas e regularmente atualizadas. Precisamos de ti para vivermos os desafios diários com ânimo e por isso das tuas dicas, sugestões e paciencia para nos esclareceres as dúvidas que aparecem. Precisamos de ti para garantirmos que o nosso doente não perde a dignidade e é tratado a tempo, não ficando esquecido em salas de espera horas e dias a fio. Precisamos de ti para não carregarmos o peso da culpa e do arrependimento o resto da vida e por isso de vermos os nossos direitos de despedida assegurados não com frieza mas com empatia, especialmente quando somos famílias com filhos menores, mais vulneráveis.
Precisamos de ti… Por tudo isto querido médico, peço-te: Da próxima vez que vires um doente sem cabelo e uma família de olhos vermelhos, pensa duas vezes. Não lhes espera apenas mais um dia de trabalho, esperam-lhes alguns dias extremamente duros que podem ser os últimos. Não os deixes sozinhos, perde tempo a ouvi- los, peço-te, é que para eles o doente não é só mais um número ou mais um cartão azul do hospital de dia de oncologia, para eles é uma vida, pela qual dariam tudo, e sem a qual passam a ser quase nada.
Esta carta é dirigida a todos os médicos que se cruzam no seu dia a dia com doentes oncológicos. Para que saibam o quão importantes são no seu caminho. É também uma tentativa de sensibilizar para a falta de humanização de alguns serviços médicos relativamente à doença oncológica e a situações de fim de vida dos doentes em Portugal (com os quais infelizmente nos cruzámos ao longo da doença do nosso pai). Para que a vida do doente não perca a dignidade e a sua família não veja esquecido o seu direito de acompanhar e cuidar desde o início até ao fim!