Há alturas do dia em que a memória voa para longe, em que nos desligamos do mundo e vivemos a tempo inteiro para doença. A porta do hospital tem o poder ou a maldição de nos fazer esquecer o mundo lá fora para nos exigir que nos foquemos por inteiro naquilo que se passa lá dentro. Podemos tentar contrariá-lo, levar o computador e os livros ou tentar trocar mensagens com amigos enquanto ocupamos uma das cadeiras da sala de espera, mas depressa somos interrompidos pelo passo apressado dos médicos, as lágrimas gordas do paciente do lado, o barulho estridente das senhas ou a gritaria frustrada na secretaria. Depressa nos chamam para saltitar de serviço em serviço dentro do hospital; para mais uma consulta, mais um exame, mais umas análises, mais uma opinião. Depressa o dia corre sem parar e chegamos a casa quando a noite já reclamou o seu lugar.
Enquanto vagueamos pelos corredores brancos do hospital a adrenalina faz-nos sentir invencíveis como se houvesse sempre um passo a mais por dar, um obstáculo por superar ou uma meta positiva para alcançar. Somos super heróis com uma capa invisível e as tarefas vão sendo automáticas sem grande margem para divagações. O mundo, o nosso mundo fica lá fora e durante as horas que ali passamos esquecemos tudo e todos para nos focarmos a 100% na nossa missão. Ficam muitas vezes conversas a meio, mensagens por responder, chamadas por atender e até mesmo cafés por aparecer, desmarcados em cima da hora com meia dúzia de palavras à pressa. Passamos a dar menos aos outros, mas não o fazemos por gostarmos menos deles, simplesmente agora precisam mais de nós noutro lado.
Mas quando voltamos a casa, quando temos finalmente tempo e espaço para voltar a pensar na vida, na NOSSA vida, as coisas complicam. A capa de super herói cai e com ela caem muitas vezes os superpoderes. Sentimo-nos pequeninos e aí apesar de cansados e muitas vezes sem cabeça para aparecer no jantar de amigos ou na saída à noite, sentimos a falta deles mais do que nunca. Chega a ser injusto mas se passamos a ter menos tempo para lhes dedicar durante o dia, no fundo precisamos que tenham ainda mais tempo para nós e sentimo-lo principalmente quando voltamos a estar sozinhos, muitas vezes quando chega a noite.
Nas horas perdidas no relógio, nos momentos mais calmos a adrenalina passa e tomamos consciência da tempestade em que estamos a navegar. Sentimo-nos frustrados por darmos tão pouco, no trabalho, na escola, nas relações com os outros e por isso a solidão chega depressa para ocupar o vazio que o cancro vai criando. Nestas alturas precisamos de colo mais do que nunca, mas muitas vezes não temos a coragem de o pedir fora de horas, mesmo sabendo que às vezes está à distância de uma chamada. E por isso vêm lágrimas de alegria a bordo de uma mensagem tardia, de um miminho levado a casa ou de um telefonema inesperado. E por isso o coração aquece quando as nossas desistências de última hora e mensagens por responder são acolhidas com compreensão e não deixam ressentimentos.
E por isso os dias tristes e difíceis ficam mais leves quando há mais alguém que se lembra deles para além de nós. E por isso é tão importante ter amigos que aceitam estar lá na mesma mesmo sabendo que nesta fase não conseguimos dar o mesmo em troca. Precisamos de amigos que não desistam de nós e que não pensem que por estarmos mais longe desistimos deles. Precisamos de amigos que fiquem de coração, que estejam inteiros mesmo quando nós não sabemos estar e que acreditem que mesmo que agora não seja possível um dia vamos voltar a conseguir também nós ser amigos a tempo inteiro, precisamos de amigos dentro e fora de horas