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“Ai que horror! Vamos falar de outra coisa”

“Ai que horror! Vamos falar de outra coisa”

“Ai que horror! Vamos falar de outra coisa”

Quando somos crianças, educam-nos para uma vida de sucesso. Desde pequeninos que nos perguntam o que queremos ser, sonhamos com a família que queremos ter e imaginamos uma vida feita de escolhas só nossas que nos leve por um caminho leve e feliz. Mas à medida que vamos crescendo, vamos descobrindo que não somos os únicos decisores da nossa vida, mas que há um sem número de coisas que acabam por chegar e reclamar o seu espaço, sem que as tivéssemos pedido. O primeiro embate com a dor pode até chegar cedo, a bordo de uma conversa de escola, uma notícia apanhada a meias palavras num telejornal ou de um desabafo entre adultos que ouvimos atrás da porta. Mas as explicações são muitas vezes adiadas e atiradas para um futuro longínquo que esperamos nunca ter de revisitar.

Ficamos confusos e a curiosidade cresce. Porque é que o meu colega de turma agora vive em duas casas? Porque é que a auxiliar do recreio ficou sem cabelo, de repente? Porque é que a minha melhor nunca fala da mãe? As dúvidas são muitas e começamos a espreitar para além da cortina e a descobrir um mundo bem diferente do que tínhamos imaginado. Chegamos a casa e inocentemente contamos estes bocadinhos de histórias tristes que vamos ouvindo, numa tentativa de as perceber melhor porque fogem completamente àquele que é o nosso mundo. Mas as respostas ficam muitas vezes por dar porque falar do sofrimento e das rasteiras que a vida vai pregando aos outros é um tabu e faz crescer um medo gigante de que a dor seja contagiosa, quase como a varicela.

Os adultos respiram fundo, sentem o coração acelerar com as perguntas difíceis e depressa murmuram a medo um “Ai que horror! Vamos falar de outra coisa”, pondo fim à conversa. Ficamos confusos, mas seguimos o exemplo e as histórias que fomos ouvindo ganham o estatuto de meras desgraças que acontecem longe longe e por isso não merecem a nossa preocupação. Falamos de outra coisa e seguimos caminho, sem pensarmos no caminho que se cruza bem perto de nós. O problema é que, na maioria das vezes, falar de outra coisa não resolve, nem a nossa dúvida, nem a dor de quem está a passar por isto. Não resolve porque continuamos protegidos na nossa realidade e por isso bloqueamos perante uma história difícil vivida por alguém próximo, tendendo a fugir ou a escolher o silêncio e o medo.

Não resolve porque do outro lado continua a haver uma família a passar um mau bocado e que, por mais que evite falar do assunto, continua a sentir o coração dorido. Não resolve porque criamos seres humanos programados para uma vida de sucesso, que não estão habituados a gerir situações em que “não vai ficar tudo bem”. Não resolve porque um dia mais tarde (ou por vezes muito cedo) a história triste também bate à nossa porta e vamos sentir a solidão de caminharmos sozinhos num trilho que ninguém quer conhecer connosco. Por isso, queridos pais, não tenham medo de falar da dor em casa. De explicar, de desconstruir, de desmistificar.

Só assim é possível criarmos crianças, jovens e adultos que não têm medo de ouvir realidades mais duras e não abandonam o barco quando alguém mergulha numa doença como o cancro ou noutro desafio semelhante. Claro que não vamos encher os nossos dias de desgracas, claro que a abordagem que fazemos aos temas tem de ser ajustada e adequada a cada idade, mas é tão importante não esconder o que é uma realidade para tantos.

Pelas famílias que sofrem em silêncio. Pelas crianças que infelizmente tiveram de crescer mais rápido do que o suposto. Pelos adultos que caminham sozinhos. Por ti que um dia podes estar do outro lado. Para que cada um seja parte de um mundo mais corajoso onde o amor e a companhia que conseguimos dar a quem caminha pela doença compensem o desconforto de conhecer a dor. ❤

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