O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
ajuda

Carta aberta aos Enfermeiros

Carta aberta aos Enfermeiros

Querido enfermeiro, Escrevo-te para te dizer o quão importante és na viagem de uma família pelo cancro. Gostava que soubesses que tens o poder de marcar vidas o o dom de tornar dias amargos em dias um bocadinho mais doces. A maioria das pessoas acha que és o responsável pelas vacinas e análises e imagina uma viagem pelo cancro acompanhada a tempo inteiro por um médico. Mas não é bem assim. O médico orienta, dá as consultas e passa alguma informação, mas o enfermeiro é muitas vezes quem dá a cara quando visitamos o hospital. É a nossa companhia mais recorrente, o nosso esclarecedor de dúvidas e o executor da maioria dos

procedimentos médicos por isso depressa se transforma na nossa companhia mais próxima e acessível. Gostava que soubesses que a forma como falas connosco, o tempo que tiras para nos ouvir e o olhar empático com que às vezes consolas os nossos olhos cheios de lágrimas não nos é indiferente, não nos passa ao lado. Gostava que soubesses que nos dias em que estamos perdidos és muitas vezes a única bússola que nos resta no meio dos corredores labirínticos do hospital e que por isso quando perdes tempo a tentar decifrar as migalhas de informação que vamos recebendo ou a descomplicar os planos de terapêuticas intermináveis, as nossas lágrimas passam a ser de alegria e gratidão.

Pareces ser quem melhor conhece o nosso doente quando vai passar uns dias ou semanas ao internamento onde estás a fazer turno. Visita-lo várias vezes ao dia, ouves as suas queixas com paciência e começas a decorar, mais do que o seu nome, a sua história e isso pode tornar a nossa viagem mais leve, mais humana. Foram várias os dias que passei entre a sala de espera da ala de internamento da medicina interna e o quarto do meu pai. Os sorrisos e os gestos de alguns enfermeiros que se cruzaram no nosso caminho são das coisas mais leves que levo desses tempos tão duros, as exceções, ainda que raras, para visitas, os esquecimentos do relógio para as cronometrar ou a tentativa para que as medicações intravenosas doessem o menos possível atenuaram a dor na altura e atenuam agora as saudades.

Durante o tempo que ali passei vi de tudo, quem trabalhasse por obrigação, quem acusasse um cansaço gigante que não cabe em palavras, quem barafustasse pelos corredores, mas felizmente também quem trabalhasse por vocação. Por isso, aprendi contigo, querido enfermeiro, o significado da palavra serviço. Ensinaste-me com os teus gestos bondosos o que é manter a dignidade dos mais frágeis mesmo auando as condições são tudo menos dignas e isso deu-me alento e ajudou-me a continuar a caminhada. Sei que há muita coisa no sistema que não funciona, que muitas vezes as condições em que trabalhas não são justas e não estão à altura da importância que tens na vida dos doentes. Sei que ouves muitos familiares

Graças ao exemplo de vários enfermeiros que se cruzaram connosco durante os 6 meses da doença do pai e ao testemunho de muitos deles sobre o verdadeiro significado da palavra cuidar, a Madalena, irmã do meio, escolheu tirar o curso de enfermagem no próximo ano, na esperança de também ela poder dar um bocadinho de si aos outros no futuro. Obrigada a todos aqueles que dedicam a sua vida ao serviço dos doentes e das suas famílias, marcam mesmo vidas, marcaram mesmo a nossa.

Continua a ler

Outros conteúdos de Ajuda.

Capa do conteúdo “O Natal da casa ao lado”
Ajuda

O Natal da casa ao lado

Os anúncios começam a chegar, os centros comerciais enchem-se de luzes e a rádio passa músicas diferentes. Faz mais frio lá fora e os filmes entopem a televisão. Começam os…

Ler
Capa do conteúdo “Fora de Horas”
Ajuda

Fora de Horas

Há alturas do dia em que a memória voa para longe, em que nos desligamos do mundo e vivemos a tempo inteiro para doença. A porta do hospital tem o poder ou a maldição…

Ler