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O Natal da casa ao lado

O Natal da casa ao lado

Os anúncios começam a chegar, os centros comerciais enchem-se de luzes e a rádio passa músicas diferentes. Faz mais frio lá fora e os filmes entopem a televisão. Começam os planos, as combinações e os preparativos. Intensificam-se as conversas sobre o tema. “Onde passas o 24? E o 25?”, “Lá em casa somos imensos!”, “Que chatice, ainda não tratei dos presentes”, “Já montaste a árvore de Natal?”, “Mas se tens os pais separados com quem é que passas a noite de Natal, e o dia?” e uma onda de alegria enche a cidade e os grupos de amigos. É verdade, o Natal é mesmo uma altura do ano cheia de cores, alegrias e oportunidades para se estar em família. É ótimo poder passá-lo com os que nos são mais queridos e encher uma casa de primos, gargalhadas e histórias. O Natal é das melhores alturas do ano. Mas na casa ao lado não é bem assim…

Na casa ao lado vive uma família que está a passar por um cancro complicado. Por isso, o Natal é mais um fator de stress do que de entusiasmo. Na verdade, se é a alegria das famílias felizes, pode ser facilmente o pânico das famílias com doentes oncológicos, como esta. Os hospitais passam a funcionar com horários reduzidos, com menos médicos e serviços. O frio aumenta e cresce o risco dos doentes, mais frágeis, apanharem um vírus ou outra doença que traga consigo um internamento longo. As urgências ficam a abarrotar facilmente dada a redução dos serviços e muitos exames e tratamentos ficam em stand by por uns dias. Tudo isto leva os doentes oncológicos a sofrerem por antecipação com uma ansiedade difícil de gerir e extremamente desgastante.

Em vez de ansiarem pelos dias de Natal, desejam que passem num piscar de olhos para poderem voltar a sentir-se seguros na doença. E isto revolta quem está por perto e dava tudo para dividir com eles o sofrimento, especialmente nesta altura. A logística também se torna complicada. É preciso garantir que não passam o Natal sozinhos, mas muitas vezes isso só é possível se as pessoas à volta estiverem dispostas a alinhar num Natal diferente, mais tranquilo. É que sair de casa não parece ser opção quando o cansaço é grande e a dependência dos medicamentos é alta. Encher a casa de gente também não é alternativa quando se sentem frágeis, não querem ser um fardo para os outros e muitas vezes têm vergonha de serem vistos assim.

Sem esquecer a gigante carga emocional que tudo isto traz. Independentemente do prognóstico, existe sempre o medo de ser o último, a ansiedade de não saber quantos mais vamos ter pela frente, o que faz pairar uma onda de melancolia e tristeza. Outras vezes, na casa ao lado, vive uma família que já terminou a sua caminhada pelo cancro e que infelizmente está agora a passar pelo luto de alguém próximo. Quando essa pessoa já não está cá, quando deixa de morar aqui, os risos e a alegria não batem à porta desta casa com tanta facilidade. O vazio é grande, maior do que uma cadeira a mais na mesa ou um presente a menos por comprar. Os silêncios são mais frequentes, trazem consigo uma maré de saudades e são preenchidos por algumas lágrimas.

Relembramos o que fazíamos antes, suspiramos com o que ficou por fazer e agarramo-nos às memórias do último… O último jantar, o último presente, a última noite, o último Natal. E por isso, na casa ao lado, há alturas em que não apetece viver o Natal, em que a nossa tristeza não cabe na alegria dos outros. Acabamos assim, por tentar ignorar o que sempre quisemos fazer esticar. Passamos os jantares de amigo secreto, recusamo-nos a passar nas ruas mais iluminadas, limitamos as visitas aos centros comerciais ao mínimo e indispensável, saltamos os anúncios comoventes, fugimos das conversas sobre o que cada um faz ou deixa de fazer e desejamos que estes tão esperados dias passem a correr como todos os outros.

Um dia vai voltar a ser Natal (espero), vamos voltar a vibrar com tudo isto e a ansiar por esta altura novamente. Mas às vezes esse dia ainda não chegou e não faz mal. Se calhar só precisamos de tempo, do nosso tempo e colo, muito colo, que acolha as saudades e console o vazio que levamos no coração. Ajuda muito ter amigos e família que respeitem esta forma menos entusiástica de viver o Natal, que não nos achem aborrecidos ou negativos, mas lado a lado nos ajudem a procurar focos de luz nesta época que para nós é mais escura. Uma mensagem fora de horas, um abraço mais apertado, um silêncio compreendido, uma ajuda com as logísticas ou preparativos do jantar de Natal, uma promessa de se estar à distância de uma chamada caso haja uma emergência e seja preciso partir em buscar do hospital aberto. Todas estas coisas, à sua maneira, podem ser colo, um grande colo.

Vive o Natal à grande! Aproveita a família mais do que nunca, abraça os que ainda tens por perto e diz-lhes vezes sem fim o quanto gostas deles. Vive! Vive tudo! Mas não te esqueças. Não te esqueças de que nem todos os Natais vão ser assim. Lembra-te de todos aqueles que este ano vão ter um Natal um bocadinho diferente, lembra-te do Natal da casa ao lado.

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