O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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Amigos colo

Amigos colo

Desde muito pequena que comecei a fazer ballet porque o meu pai defendia que lá em casa todas tínhamos de fazer um desporto. Lembro-me de com cinco anos me levarem todas as semanas à escola de dança, do meu pai me ir buscar todas as terças e quintas, quando as aulas acabavam mais tarde, de, mais velha, assistir aos meus espetáculos e de, já em adulta, ir ver bailados só comigo. Não fomos a muitos, mas os que fomos foram especiais porque era um programa só nosso, de pai e filha. No ano em que o pai ficou doente saí da dança e não voltei mais. Passaram 3 anos e se às vezes tenho muitas saudades, outras parece ter perdido o sentido. Porque já não pode ver os meus espectáculos, já não pode ir a bailados comigo ou enviar-me mil e uma notícias e curiosidades sobre a dança. Deixei tudo em stand by, numa inércia de voltar e fui escolhendo ignorar para não doer, para doer menos.

Mas há uns dias apareceram em minha casa duas amigas muito antigas, que conheciam muito bem o meu pai e tinham até andado no ballet comigo. Chegaram sem aviso, no fim de um dia de trabalho, com uma surpresa. Um miminho muito querido, uma estrela e um convite para ir ver o Lago dos Cisnes. Fiquei sem reação por fora, mas o meu coração sorriu muito por dentro. Às vezes perguntam-me de que forma é que se pode ajudar quem está a passar pela doença de alguém próximo ou quem está a fazer o luto, por parecer sempre que há pouco a fazer quando não temos o dom de trazer de volta aquilo que a doença levou. Acredito que a simplicidade é o ingrediente chave, porque são gestos como este, discretos, aparentemente pequenos, que são bengala para o caminho.

O cancro é como uma esponja, é capaz de absorver todas as migalhas da nossa vida e pode tentar levar de nós um bocadinho (ou um bocadão) daquilo que somos. Por isso é mesmo importante que nos ajudem a trazê-lo de volta. Amigos colo são aqueles que nos ajudam a não perder a nossa identidade durante a doença, a manter, ainda que por vezes nos mínimos, as coisas que nos equilibram, que nos permitem respirar fundo quando o avanço do cancro nos faz bater bem no fundo, os nossos hobbies, os nossos miminhos preferidos, as nossas pessoas. É também uma doença que teima em descolorir muitas coisas que sempre trouxeram cor à nossa vida, fazendo com que facilmente nos rendamos à tentação de as deixar esquecidas num passado que já não volta, por isso precisamos tanto de amigos que nos ajudem a combater um futuro a preto e branco.

são também aqueles que quando o luto bate à porta são companhia nos “voltares” mais difíceis, que com paciência e empatia nos ajudam a voltar a todas as coisas que já fizeram parte do nosso dia, mas que agora doem, doem muito por trazerem atrelada uma saudade que mói por dentro. O restaurante onde íamos com quem já não mora aqui, o sítio onde passámos boas férias juntos, o hospital onde vivemos momentos tão duros, mas onde invariavelmente um dia vamos ter de voltar, nem que seja para uma mera consulta de rotina, os dias especiais em que o vazio se sente com mais força, as rotinas que nunca mais tivemos coragem de repetir, os sonhos que deixámos de querer concretizar…

Sabemos que não têm o dom de fazer desaparecer a doença ou trazer de volta quem já não mora aqui, mas ser um bom amigo, com um coração grande e um olhar atento pode diminuir um bocadinho a solidão do caminho e ser colo desta dor que não vai embora, mas se torna mais leve quando passa a ser partilhada.

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