Quando a doença vem para ficar e se prolonga no tempo, sem dar sinais de querer ir embora. Ou quando num piscar de olhos leva de nós alguém que nos é tão querido, sem permitir o seu regresso, experimentamos um sentimento muito próprio, muito nosso, a dor. E esta dor é traiçoeira, tanto connosco, como com os outros à nossa volta. Isto porque, se de início quer fazer de estrela e ocupa o palco da vida de tantos, com o tempo, vai-se perdendo na contagem de dias, meses e anos, escondendo-se do olhar de quem a vive mais longe. O problema é que os dias, meses e anos não levam consigo a dor. Não a prendem ao passado nem a etapas que vamos ultrapassando. Turvam a vista do mundo, mas em pouco mudam o coração dos que a vivem na primeira pessoa.
Quando uma doença ou um luto chegam, vêm de malas bem cheias, viram-nas do avesso e espalham tudo pelo chão, à vista de todos. Voa o choque, o medo, a tristeza, o cabelo e as visitas ao hospital, voa tudo pelo ar e todos veem. Aí, é mais fácil perceber o que é preciso apanhar com o coração e voltar a guardar na mala, com cuidado, com empatia, com atenção. Mas à medida que o tempo vai passando, que as novas roupas, adequadas ao crescimento da doença ou da saudade, vão aparecendo e voando pelos ares, a agitação do mundo volta e entre correrias do dia a dia e a vida a acontecer, vão sendo atiradas para um canto, escondidas por baixo dos móveis, longe da vista dos que vivem perto de nós.
Tudo passa a ser banal, rotina, por mais dura que esta rotina possa ser. E, inconscientemente, vamos seguindo caminho, na certeza de que por pior que seja “já passou 1 mês, muitos meses, 1 ano, muitos anos”. Mas na verdade, passou muita coisa, passámos por muita coisa, mas há coisas que não passam. Podemos aprender a fazê-las passar de forma um bocadinho mais leve, mas vão acompanhar-nos para a vida. E por isso a dor não tem validade e quem a leva no coração precisa de colo, do início ao fim. Por isso as mensagens não são repetitivas, mas aquecem o coração, sempre. Por isso a companhia em dias mais tristes é precisa e faz milagres.
Por isso as datas especiais pedem mais cuidado, mais atenção. Por isso as grandes conquistas são sempre agridoces e pedem mais colo para tentar apaziguar o que falta na cadeira vazia. Por isso os ataques de choro não são sinal de que não se andou para a frente, mas às vezes até prova de que se está a fazer caminho. Quando a dor é grande vale quase tudo, sempre, porque a dor não é temporária, porque a dor não tem validade.