O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
ajuda

E o teu pai, faz o quê?

E o teu pai, faz o quê?

Quando encontramos o cancro pelo caminho, começamos a reparar em coisas que antes nos passavam despercebidas e conversas que sempre pareceram banais tornam-se de repente desconfortáveis. Mais uma vez o tempo não espera, nem nos escreve na testa a palavra cancro para que os que se cruzam connosco possam ter um briefing antecipado daquilo que se passa na nossa vida. Por isso, quando voltamos ao mundo, descobrimos a quantidade de voltas que o mundo tem de dar para nos passar a compreender depois desta viagem tão intensa. Voltamos aos grupos de amigos, àqueles mais distantes ou aos que acabámos de conhecer, ao trabalho, à escola, aos balcões administrativos dos serviços e às consultas.

Com todas estas voltas voltam conversas de circunstância e as perguntas do costume, só que agora têm um sabor diferente, umas porque nos deixam sem resposta, outras porque nos deixam à beira das lágrimas. “Onde é que te vês daqui a 5 anos?” Não faço ideia, nem sei como vão ser os meus próximos 5 dias, aprendi que não vale a pena fazer muitos planos, mais vale deixar a vida acontecer e aproveitar o dia a dia. “Que bom o Manel e a Teresa casaram, já pensaste como vai ser quando fores tu, quem te vai levar ao altar…” Penso, demasiadas vezes e devo confessar que o coração fica pequenino ao pensar no que pode ser um dia tão cheio e tão vazio ao mesmo tempo.

“Pois isso é uma chatice, é mesmo coisa de rapaz, mas porque é que não pedes ajuda ao teu pai?“, Era uma boa ideia, mas acho que vou pensar noutra alternativa, na verdade algum dia teria de o fazer sozinha. “Ah que engraçado a tua mãe tirou economia, não tem nada a ver com o curso que tiraste, mas nunca me disseste, e o teu pai, faz o quê?” … Aí o mundo para, a garganta fica seca e os olhos brilham. Tentamos dar as voltas possíveis e as impossíveis, às vezes fingimos que não ouvimos ou damos umas respostas mais enigmáticas como quem se enganou nos tempos verbais. Não queremos mentir, mas também (ainda) não sabemos dizer a verdade.

O meu pai fez muita coisa, mas agora já não trabalha aqui ou ali e não é mais velho ou mais novo que o teu. Não, também não se chateia comigo se tiver más notas ou se não arrumar a casa ou o quarto, nem me vai buscar a altas horas quando vou sair à noite. Sabes é um bocadinho diferente, eu não tenho de o avisar que cheguei de uma longa viagem ou ir ligando quando estou fora. Por isso não percebo quando suspiras e dizes que o teu por vezes é chato e refila quando faltas aos almoços de família. Não, no verão não passamos férias juntos e o natal passou a ser uma altura bastante chata. Por isso, quando me fazes estas perguntas todas, fico envergonhada e tento sair de mansinho sem que te apercebas.

Não, o meu pai não trabalha, não é mais velho ou mais novo, não se zanga, não me vai buscar e não é chato. Na verdade, são poucas as vezes que tenho coragem de o dizer, mas o meu pai é mesmo diferente do teu, é que o meu pai já não mora aqui. Não te explico mais vezes porque não quero estragar o ambiente de café ou atrasar os dois dedos de conversa num corredor de supermercado. Também não quero que te sintas desconfortável ou fiques com pena! Por isso quando estas perguntas tão banais surgem em conversa, quando uma nova pessoa se cruza no meu caminho ainda custa um bocadinho. O silêncio costuma ser o refúgio mais fácil, menos doloroso, mas mentia se dissesse que não dói. (Ainda) dói muito.

Mas consola saber que já não mora aqui, mas mora perto, às vezes ainda mais perto do que antes. E que me visita várias vezes ao dia, quando menos estou à ❤ espera ou quando mais preciso dele.

Continua a ler

Outros conteúdos de Ajuda.

Capa do conteúdo “Carta aberta aos Médicos”
Ajuda

Carta aberta aos Médicos

Querido médico, Sei que o teu dia é provavelmente igual ao de todas as outras pessoas. Acordas de manhã e também apanhas trânsito para o trabalho. Deixas filhos na escola e perdes…

Ler
Capa do conteúdo “Vai ficar tudo bem”
Ajuda

Vai ficar tudo bem

Quando o presente é cinzento e o céu está cheio de nuvens, acreditar num amanhã mais solarengo descansa a alma, acalma o coração. Por isso rezamos, pedimos, sonhamos, desejamos…

Ler