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Carta aberta ao professor

Carta aberta ao professor

Querido professor, Sim, sou eu, a aluna que antes escolhia a primeira fila e que agora se senta ao fundo da sala, na esperança de que te esqueças de que ali está. Sei que andas a estranhar o meu comportamento, já não participo nas aulas e a nota do último teste deixou muito a desejar. Os trabalhos de casa continuam a vir quase sempre feitos, mas a maioria deles à pressa e a teu ver com algum desleixo. Quando a campainha toca, saio muitas vezes da sala a correr e há dias em que tenho de deixar a escola a meio do dia, sem tempo para grandes explicações. Para além disso, a minha cabeça está quase sempre nas nuvens por isso sou acordado, de repente, quando me chamas ao quadro ou me perguntas se já acabei os exercícios.

Gostava de ter coragem para te contar o que se passa, mas implorei aos meus pais que não te dissessem nada ou então, como já sou mais velho, escolhi esconder de ti a tempestade que se vive lá em casa porque tenho vergonha de o dizer em voz alta. Detesto que tenham pena de mim ou me facilitem o caminho. Mas a verdade, querido professor, é que a escola deixou de ser o meu principal dever, a maior ocupação da minha cabeça e a minha prioridade quando chego a casa. Pensava que era aqui que ia aprender grandes coisas, mas, ultimamente, a maior fonte de aprendizagem tem sido lá fora, nos corredores do hospital que visito com frequência ou nas conversas soltas que oiço lá em casa sobre o estado clínico do meu pai.

É que agora, os trabalhos mais difíceis não são os problemas de matemática, mas as contas de cabeça que tenho de fazer para saber as dosagens certas dos medicamentos. As apresentações mais stressantes já não são as que faço para a turma, mas as que ensaio perante os médicos para tentar arrancar-lhes alguma informação. As chamadas mais temidas já não são as que me fazes ao quadro, mas as do meu telemóvel a avisar que o pai não está bem e foi de urgência para o hospital. As reflexões mais profundas já não são as das aulas de filosofia, mas as que faço de noite sobre o tempo de vida do meu pai. Os casos clínicos mais impressionantes já não são os que me apresentas nas aulas de biologia, mas o que leio nas pastas azuis e exames que estão espalhados lá por casa. Agora está tudo diferente.

Claro que um dia quero voltar a ser o aluno de sempre. Na verdade, dava tudo para que esse dia chegasse rápido, era sinal de que a doença tinha finalmente alcançado a cura e que podia voltar a viver uma vida adequada à minha idade. Mas esse dia ainda não chegou por isso preciso da tua compreensão e da tua ajuda para que no meio desta corrida a escola não seja mais um obstáculo. Assim, quando encontrar a coragem necessária para te explicar o que se passa, gostava de poder contar contigo, com a tua empatia: Não me chames ao quadro em frente à turma toda para resolver uma pergunta difícil. O meu coração está virado do avesso e a minha capacidade de reagir a situações de stress está por um fio. Estou mais frágil, guardo dentro de mim muitas emoções fortes por isso à mínima coisa as lágrimas visitam os meus olhos.

Não resumas a minha nota a dois exames. Peço-te, sê um bocadinho flexível e, se no dia do teste tiver passado a noite em branco, senta-te comigo à procura de outra forma justa de te mostrar o que sei. Não te chateies imediatamente comigo se me vires a espreitar o telemóvel, tenho de estar sempre alerta para caso seja preciso alguma coisa, por isso não fico descansado se o mantiver desligado. Eu sei que tens uma turma cheia de alunos, talvez até várias. Sei que não tens culpa de que a minha vida tenha dado umas quantas voltas este ano letivo. Mas, sabes, o cancro ensinou-me a ser mais resiliente e menos exigente, por isso prometo-te que o mínimo esforço que fizeres vai ser sentido como se fosse o maior gesto do mundo. Não podes apagar a minha dor, mas a tua atenção pode tornar esta caminhada mais leve ou, pelo ❤ menos, menos pesada

O caminho mais fácil quando o cancro visita a nossa família é isolarmo-nos. Sentimos que fora de casa ninguém nos compreende, que não pertencemos a lado nenhum e que o que sempre foi um gosto passa depressa a ser uma obrigação. A escola é o espaço onde as crianças, os adolescentes e os universitários passam grande parte do dia, mas se numa fase normal tem tudo para ser agradável, quando deixamos de ser estudantes a tempo inteiro, por causa do doença, pode tornar-se uma dor de cabeça. Ter professores que perdem tempo a saber como estamos e se esforçam por desenhar uma estratégia adaptada à instabilidade que passa a ser o nosso dia, não resolve tudo, mas ajuda bastante. Não queremos que nos facilitem o caminho, mas que nos ajudem a fazer caminho ❤

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