O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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Dia de anos Maria

Dia de anos Maria

Quando era pequena adorava fazer anos. A vida lá em casa parava para o melhor dia do ano, com pequenos almoços cheios de coisas boas boas, miminhos na lancheira para a escola, o nosso bolo de eleição e presentes feitos entre manas para ver qual o mais criativo. As festas eram sempre diferentes, umas simples outras mais complexas, mas qualquer que fosse a ideia, o dia dos nossos anos era sempre um dia bom, era sempre um dia mesmo bom. Depois o pai e a mãe separaram-se e a nossa vida deu a sua primeira grande volta. Os dias de anos passaram a ser mais confusos e as horas deixaram de ser suficientes para encaixar toda a gente sem ter de almoçar ou jantar duas vezes. Depressa percebemos que o dia não esticava por isso era preciso ser criativo para ter tempo para tudo. Inventámos então uma nova refeição importante, o gelado fim de dia.

Passámos a lanchar com o pai ao fim da tarde. Ia buscar-nos a casa e levava-nos a comer um gelado numa boa gelataria ou um croissant no nosso café preferido. Foram vários os gelados fim de dia, mas foram poucas as vezes em que lhes dei o valor que mereciam. Talvez tenha sido da idade, talvez da forma alternativa que eu e o pai tínhamos de mostrar que gostávamos um do outro, talvez não tenha sido por razão nenhuma. Mas a verdade é que ficava sempre em stress e acabava por passar aquele tempo de cronómetro na mão e com a cabeça fora dali. Ou porque tinha ficado alguma coisa por comprar para o jantar a seguir, ou porque tinha saído mais cedo de um café de amigos mesmo divertido, ou porque as mensagens continuavam a cair e queria ver o que diziam…

Naquela altura ainda não tinha ganho o dom de saber viver o “agora”, os cafés ainda eram só cafés e os raios de sol ainda eram só pontos de luz que obrigavam a franzir os olhos. A vida era para sempre e por isso a pressa era do dia a dia e não de tentar criar memórias importantes. É uma pena que este tipo de aprendizagens só costume vir mais tarde, a vida passa rápido e só nos lembramos de correr atrás dela quando a corrida passa a ter de ser diferente. Hoje, no dia dos 22 no dia 22, dava tudo para ter só mais um desses lanches… desta vez deixaria o gelado derreter, desligaria o telemóvel e a cabeça das mil coisas que ainda iam faltar para o jantar lá em casa e aproveitaria os raios de sol de fim de tarde tanto como aproveitaria a conversa com o pai.

Os últimos dias têm deixado o coração baralhado. Como sou a última a fazer anos, vi de perto a marca que o lugar vazio no café, a mensagem não recebida e o telefonema que não toca deixam no coração. Vi nas lágrimas das manas o espelho de uma saudade que não se explica em palavras e senti no silêncio a meio do dia a falta do programa com o pai. Por tudo isto o medo era grande. Medo de doer ainda mais neste dia, de ver um bolo à frente e me desmanchar a chorar cheia de saudades à luz das velas, medo de em vez de querer aproveitar cada segundo, desejar que este dia desaparecesse do calendário. Mas mais uma vez o cancro veio provar que quando nos vem trocar as voltas não nos deixa só uma grande dose de tristeza. Traz consigo uns óculos novos que nos dão um novo olhar pela vida e depressa nos ensinam que é sempre possível ver uma coisa de diferentes perspetivas.

Este ano escolhi que a que queria para este primeiro dia de anos sem o pai a morar aqui era viver o dia sem planos e deixar as coisas acontecer. Por isso não pensei tanto no assunto, marquei a festa com três dias de antecedência, encomendei um bolo no dia anterior e confiei. Prometi a mim mesma escolher sempre que possível as gargalhadas, mas não prender as lágrimas se teimassem em juntar-se à festa. Confiei que por morar perto encontraria de certeza o caminho para o gelado de fim de dia e que este ano ia ser o primeiro em que o dia já não tinha de esticar, porque agora, no céu gigante onde vive e ocupa o lugar de estrela mais brilhante, está comigo o dia inteiro, não há festa que lhe passe ao lado.

Hoje, longe de casa, não há geladarias e croissants, mas há uma marginal gigante que corre ao longo do mar de Díli. Hoje, longe do pai, não podemos conversar como antes, mas os raios de sol continuam cá, vou aproveitá-los na mesma. Por isso, de manhã cedo, peguei na mota e vim ver o mar sozinha. Senti-o perto. Não comemos um gelado, mas conversámos em ondas. Não lhe dei um abraço, mas senti o seu abraço. Não me deu um presente, mas encomendou um dia de sol e assim fez-se presente. Não estivemos juntos, mas esteve comigo o tempo todo, e desta vez sem pressas, ❤ mas com todo o tempo do mundo

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