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Internamento I — Da cabana de zinco, à janela do último andar

Internamento I — Da cabana de zinco, à janela do último andar

Internamento I Da cabana de zinco, à janela do último andar

Era uma tarde de sol e eu estava numa das muitas praias da Costa Vicentina. Tinha decidido manter a semana de férias com os meus amigos para tentar desligar durante uns dias da doença do pai e para o último dia tínhamos escolhido uma praia sem rede. A meio da tarde subi a escadaria enorme sobre a falésia para ver se tinha alguma chamada importante, 3 chamadas perdidas do pai. Gelei. Devolvi-as num instante, mas a rede era péssima. Enviou-me então uma mensagem “Vim para o hospital e vou ter de cá ficar”. Faltou-me o ar. Estava internado e eu a kilómetros de distanciascia. Perguntei até que horas eram as visitas, “das 16:00 às 18:30”. Eram 6 da tarde, já nem sequer chegava a tempo. Arrumei o telemóvel e senti-me irritada, porque é que

tinha ido para fora? O meu pai estava sozinho no hospital e eu longe sem poder fazer nada. Passei o resto do dia rabugenta, sem paciência para nada nem ninguém, só queria chegar a Lisboa, voltar para casa e fazer os ponteiros do relógio correrem até às 2 da tarde do dia seguinte, a hora da próxima visita. Na verdade não correram, fizeram questão de rastejar, mas às 14:00 em ponto lá estava eu, à porta do hospital. O meu pai tinha dito qualquer coisa sobre não haver vagas no internamento e por isso ter de ficar internado no covidário até que alguma cama vagasse. Assumi que fosse um edifício novo construído na era Covid, mal sabia eu que de novo não tinha nada.

O covidário num dos maiores hospitais de Lisboa era um armazém daqueles de zinco como nos filmes, sem janelas e todo em metal. Os “quartos” eram estreitos, pareciam celas e não tinham nada mais do que uma maca e um ar condicionado gelado sempre ligado. A porta era de vidro por isso de noite a luz não deixava ninguém dormir e as enfermeiras trabalhavam no corredor, onde se espalhavam cadeirões com pessoas cheias de máquinas e tubos. O meu pai não queria que eu entrasse, mas eu sabia que tinha de entrar. Para mim seriam 15 minutos de choque, ele já contava com mais de 24 horas. Respirei fundo, pus a máscara e tentei ignorar o caos que se fazia sentir no corredor onde estavam internados os casos mais críticos.

Uma das enfermeiras levou-me ao “quarto” do meu pai. Ficou feliz por me ver. Já não me lembro do que falámos, mas lembro-me de estar numa pilha de nervos. Era tudo novo, internamentos, covidário… por isso faltavam-me as palavras. Chocaram-me as condições daquele sítio onde a luz branca ofuscava o olhar por isso prometi levar-lhe tudo e mais alguma coisa no dia seguinte. Não pediu nada, só que voltasse noutro dia quando já estivesse num quarto um bocadinho melhor. Ansiei que esse dia chegasse rápido e tive medo do compasso de espera ainda em falta. Com o cancro aprendi que as condições à nossa volta afetam bastante o nosso estado de espírito por isso percebi logo que o meu pai não ia aguentar ali muito tempo. Felizmente a notícia não demorou a chegar,

no dia seguinte surgiu um lugar vago numa das alas da Medicina Interna, a minha segunda casa nos 15 dias seguintes. Despedi-me do pai com o coração apertadinho e de olhos postos no chão para não voltar a ver os rostos cansados no corredor. Saí do tal armazém de metal e fechei a porta atrás de mim. Cá fora a mãe esperava mais uma vez de braços abertos. Não dissemos nada, saímos dali. No caminho até ao carro reparei que a vida continuava igual, toda a gente ao seu ritmo vivia o seu dia como se fosse só mais uma tarde de sol, mas eu continuava presa aos minutos de cor cinzenta dentro do armazém de metal.

Passaram muitos meses até voltarmos a falar sobre o tempo que esteve internado no covidário, a mim chocou-me na altura, mas depressa vieram choques maiores que me fizeram relativizar o que tinha visto naqueles 15 minutos. Ao meu pai não, a lembrança destes dias ficou bem viva na sua memória o resto da vida, ao ponto de em internamentos seguintes ter receado ter de voltar a passar por ali. Quando um dia me confessou terem sido as piores horas da sua vida, percebi finalmente o impacto que o cancro pode ter nas pessoas que o sentem na pele. A força faz com que enfrentem cada dia de forma positiva, mas há marcas que ficam para sempre e que nenhum ser humano devia levar consigo.

Mas se o cancro deixa marcas também deixa um novo olhar sobre as coisas. Depois dos tempos do armazém de metal, o quarto seguinte do meu pai nos últimos pisos do hospital passou a ser um luxo! Viu na cama articulada um sinónimo de cama de hotel, nos colegas de quarto uma mão cheia de novos amigos e nas enfermeiras o carinho de quem sabe cuidar e intercalar as mudanças de catéters com jogos do peixinho às escondidas. No dia seguinte, quando o fui visitar, já todos sabiam o seu nome , já era da casa, ou melhor do hospital. E com este olhar esperançoso e postura de quem sabe aproveitar as horas leves da viagem, lá estava ele outra vez a mostrar-nos sem saber o quão pouco precisamos para sorrir, mesmo quando tudo à volta parece triste.

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