Quando o diagnóstico do pai chegou e começámos a perceber que a doença, no seu caso, era mesmo muito grave, prometi a mim mesma vê-lo todos os dias. Podiam ser 5 minutos ou três horas, tudo dependia do seu estado e do tempo que a vida me dava para isso, mas passou a ser a minha prioridade, o momento alto do meu dia. Queria, acima de tudo, que sentisse que mesmo que não pudesse viver a doença por ele, estava sempre por perto a vivê-la com ele e por isso conto pelos dedos das mãos as vezes em que falhei esta promessa. Normalmente visitava-o depois das aulas porque a faculdade ficava a caminho de sua casa. Era sempre uma jogada no Totoloto, umas vezes saía-me a sorte grande e a visita era leve leve, outras as notícias eram mais
pesadas e deixava o seu prédio de cabeça baixa e olhos brilhantes. Havia dias em que estava muito cansado e nem sequer se levantava da cama. Nessas alturas, sentava-me no chão, ao seu lado, e contava-lhe as novidades calmamente para o tentar animar. Tentava dosear a energia com a indiferença para que se alegrasse, mas não ficasse com muitos ciúmes da vida que seguia sem esperar por ele. Ouvia com atenção e fazia um esforço para sorrir entre os suspiros e as dores que tanto tentava esconder. Acabava por adormecer a meio de muitas conversas, mas foi assim que aprendi o quão importantes podem ser os silêncios.
Deixava-o descansar e prometia voltar no dia seguinte, dando-lhe certezas de que era só uma fase mais chata, uma questão de tempo até voltar a ficar tudo bem. Também havia dias bons, em que o encontrava no sofá da sala a ver qualquer coisa na televisão ou a ler um livro. Quando isso acontecia, sentava-me ao seu lado e tínhamos longas conversas sobre os mais recentes temas da atualidade. Discutíamos notícias, falávamos sobre o futuro e parecia que, mesmo não saindo daquelas quatro paredes na maioria dos dias, continuava a estar a par do mundo que corria lá fora. Saía lá de casa com um sorriso e pensava que a doença podia afetar muitos membros, mas o essencial, a cabeça, continuava a funcionar como antes, continuava a ser um pai muito culto e que gostava de pensar alto sobre as coisas.
E havia dias leves, mesmo leves, em que descia do seu segundo andar e se encontrava comigo numa esplanada para um café ao sol. Àquela hora a rua estava deserta de pessoas da idade do meu pai. Faziam-nos companhia os jovens, nas suas pausas entre as aulas, e os velhinhos que liam o jornal e gozavam a sua reforma. No início fazia-me confusão. Sentia que todos os olhares se pousavam em nós, no pai careca que devia estar a trabalhar ao fim da manhã e na filha mais velha que lhe fazia companhia sem pressas. Depois passei a desvalorizar estes olhares de café e a viver aquelas horas com o coração inteiro. Tomávamos um café ao sol e depois dávamos uma volta pelo quarteirão, sem pressas. Deixava o pai à porta do prédio e voltava para casa com uma dose redobrada de esperança.
“O cancro é a total ausência de regras” repetia o médico do primeiro internamento do pai, sempre que se queria escapulir das perguntas difíceis. E é verdade. Acompanhar um doente oncológico é aceitar embarcar num vagão de uma montanha russa e estar preparado para uma viagem cheia de curvas apertadas, loopings e subidas a pique. É sentir um frio na barriga cada vez que o vagão começa uma nova viagem e aprender a valorizar os detalhes mais simples como uma brisa de vento na cara. E por isso a vida passa a ser feita de dias Totoloto, onde as lágrimas vêm visitar-nos nas alturas mais difíceis em que a dor vence, mas a alegria chega a dobrar quando a doença sabe dar tréguas e conseguimos arrancar umas valentes gargalhadas da pessoa de quem tanto gostamos.