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Querido pai, acabei o curso

Querido pai, acabei o curso

Hoje foi o dia de chegar ao fim de um caminho longo de 4 anos pela faculdade de Direito. Um caminho às vezes sinuoso, com muitos desafios, mas também muitas gargalhadas e momentos de aprendizagem. Hoje foi o dia de chegar ao fim, mas foi também altura de recordar tudo desde o início e por isso as saudades cresceram e o sentimento foi agridoce. Hoje foi o dia de sentir a falta do pai mais do que nunca. Não era de muitas palavras e elogios, mas não escondia o orgulho que tinha em me ver a tirar um curso como este. Dizia a toda gente que ia ser advogada e era o mais interessado em ouvir as grandes discussões profundas que as vezes trazia das aulas quando mais ninguém tinha paciência para as ouvir. Baralhava-se sempre no ano em que eu estava, mas não tinha dúvidas de que ia brilhar no futuro e isso enchia-me de orgulho, mesmo que tenham sido poucas as vezes em que lhe disse.

Era das pessoas a quem mais gostava de dizer que tinha tido uma boa nota e era a primeira a perguntar- me sobre uma polémica qualquer acabada de sair nas notícias. Perdiamo-nos em debates controversos e desafiava-me a pensar de forma diferente e isso dava- me ainda mais vontade de acabar o curso e seguir isto para o resto da vida. No último ano vivemos este caminho pela faculdade literalmente lado a lado. Eu ia às aulas de manhã e o pai ia aos tratamentos no hospital duas ruas atrás. Por isso quando o tempo não passava e as aulas eram mais aborrecidas, lembrava-me de que bem perto estava o meu pai ligado a uma máquina durante 4 horas e que isso sim era aborrecido, ficando imediatamente mais motivada.

Todas as manhãs nos cruzávamos na rua dos cafés, eu a bordo do autocarro cheio de gente para chegar à faculdade e o pai numa esplanada ao sol nessa mesma rua a tomar o seu café sozinho. Ele não me via, mas eu achava engraçado o jogo de o procurar todos os dias e enviava-lhe sempre uma fotografia do tipo paparazi. Depois das aulas saía a correr para o ir visitar. Era eu quem falava mais, porque os seus dias eram sempre iguais, mas entre monólogos às vezes sem resposta ia acenado em sinal de quem ouve ou pelo menos quer ouvir. Custava-lhe ver-me sem tempo para a faculdade e a mim custava-me que sentisse que era um fardo para nós por isso tentava ao máximo desvalorizar a quantidade de coisas que tinha para fazer quando estávamos juntos. Mas era difícil esconder por isso acho que acabou por ver tudo na mesma.

Viu as tardes de estudo na sala de espera da unidade de oncologia ao som dos bobies a passear e as senhas que passavam em modo caracol enquanto esperávamos pelo seu tratamento. Viu a pressa com que saía lá de casa às quartas e sextas às 8 da noite para correr para as aulas extra que estava a ter de forma a ainda conseguir ir de erasmus no semestre seguinte. Viu os códigos pesados que trazia comigo para rentabilizar as tardes em que ia lá para casa só para fazer lhe companhia porque tinha medo de ficar sozinho. Viu a minha desilusão por não ter ficado nos estágios a que me candidatei nos melhores escritórios de advogados.

Viu a frustração de ver as notas a descer por não ter tanto tempo e capacidade emocional para me dedicar à faculdade e não haver nenhum estatuto para cuidadores informais que equilibrasse as coisas. Viu as peripécias do caminho, viu o esforço e a dedicação, o malabarismo de tempo e o stress inquietante, mas hoje não viu o final feliz, hoje não me viu a acabar finalmente o curso. E por isso o dia é agridoce, a conquista não tem a mesma importância por não ter cá quem mais queria que a celebrasse comigo. E as lágrimas caem devagarinho quando vejo uma pasta cheia de fitas mas nenhuma é a dele.

Quando deixou de morar aqui perdi a vontade de continuar. Desisti das orais de melhoria em que me tinha inscrito e não consegui ir às aulas nas primeiras duas semanas. Tudo me lembrava do pai e por isso tudo doía tanto. Deixei de atravessar a rua dos cafés de olhos postos nas esplanadas e passei a fazê-la de olhar preso no telemóvel para tentar afastar as saudades. Tornei-me mais tímida na faculdade e a vontade passou a ser acabar o curso o mais rápido possível para nunca mais ter de voltar ali e assim tentar que doesse menos. Soube ser o semestre mais difícil, em que mentalmente riscava no calendário os dias que iam passando com o horizonte na última frequência e decidi não ir a nada dos finalistas tentando fingir que era mais um semestre normal que por acaso era o último.

Mas o tempo foi passando, fui aprendendo a gerir as saudades e a ter espaço para respirar no meio da tristeza. E como acredito na importância de fechar ciclos e de fazer frente à dor para que não fique nada mal resolvido e no futuro prevaleça o amor, hoje acabei por fazer tudo como se estivesse aqui na certeza de que seria o que o deixaria mais feliz. Querido pai, hoje tinhas dito a toda a gente que eu tinha finalmente acabado o curso, tinhas-me dado um abraço cheio de orgulho e tínhamos ido jantar fora. Descansa-me pensar que aí de cima viste tudo na mesma, que contaste aos teus novos amigos aí do céu e que não jantámos juntos no restaurante mas estiveste em cada brinde e em cada sorriso. Encomendaste um dia de sol e fizeste-te presente nos momentos bons, parvoíce a minha pensar que não estiveste aqui comigo.

Sei que este foi apenas o primeiro dia importante em que não te pude ver na fila da frente, mas prometo que não vou deixar de viver o seguintes por já não estares tão perto. Vou confiar que já não moras aqui, mas moras perto e que como do céu à terra são dois passos, vou continuar a sentir-te aqui, vou continuar a sentir os teus abraços. 25 de maio de 2024

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