O Meu Pai Já Não Mora Aqui O Meu Pai Já Não Mora Aqui
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Quimioterapia — As malditas cadeiras azuis

Quimioterapia — As malditas cadeiras azuis

Quimioterapia As malditas cadeiras azuis

Lembro-me do dia em que ligaram ao pai de manhã a dizer que não ia fazer análises depois do almoço, mas sim o seu primeiro tratamento de quimioterapia. Lembro-me de sentir que me arrancavam alguma coisa das mãos naquele dia, de ter tido muito medo e de ter pensado que o pai que iria buscar àquele hospital nunca mais seria o mesmo. Eu e M. (Irmã do meio) levámos o pai ao tratamento. Tentámos parecer tranquilas para que não percebesse o medo que sentíamos, mas o próprio pai teve dificuldade em esconder o nervosismo. Mal passámos a porta principal do hospital corremos para o balcão das cadeiras de rodas. O piso da quimioterapia ainda era longe e o pai cansava-se muito a fazer os grandes corredores a pé por isso tivemos de levar uma delas connosco.

Da primeira vez que empurrei aquela cadeira de rodas, senti-me desconfortável. Quando era pequena o pai levava-me ao colo quando adormecia no carro, quando os passeios eram demorados punha-me às suas cavalitas para que não ficasse tão cansada e quando as ondas eram grandes levantava-me no ar para as conseguir ultrapassar. Nunca tinha imaginado que um dia, no auge dos seus 53 anos, estaria a empurrar a sua cadeira de rodas. Mas o cancro tem destas coisas por isso em vez de nos deixarmos paralisar pelas surpresas menos boas, mais vale tentarmos retirar o que de positivo pode haver nelas, como a cumplicidade e o testemunho de humildade neste caso. Depois de vários corredores e algumas viagens de elevador, chegámos ao piso da quimioterapia.

Já tinha ido a algumas consultas com o meu pai, mas nunca naquele piso. Fiquei boquiaberta desde o momento em que passei a ombreira da porta. O hospital de dia de oncologia daquele hospital gigante não era mais do que um corredor atafulhado com algumas macas encostadas entre as portas dos gabinetes e duas salas mínimas cheias de cadeiras azuis desconfortáveis que nem sequer deixavam espaço para os doentes que se deslocavam de cadeiras de rodas encontrarem um lugar para as estacionar. No guinchet só havia uma pessoa a fazer a triagem a um ritmo muito lento e com um semblante muito mal humorado. Tirámos a primeira senha e sentámo-nos nas cadeiras azuis desconfortáveis. Tentei que a cadeira do pai não incomodasse muita gente, mas não era fácil porque o espaço era mesmo muito pequeno.

Iniciámos aquelas que seriam as quase três horas de espera até o pai começar o tratamento. Sem grande alternativa, sentei-me nas cadeiras azuis incómodas e olhei em volta. Engoli em seco. Muitos sentem um arrepio na espinha quando se cruzam na rua com um doente sem cabelo, mas poucos imaginam a aflição que se vive nas salas de espera de algumas unidades de oncologia em Portugal. À minha volta estavam pessoas de todas as idades, umas sozinhas, outras acompanhadas, umas sem cabelo outras com peruca ou um lenço fininho na cabeça. Umas mais débeis e com uma expressão cansada, outras mais inquietas e com uma feição exasperada. Todas muito diferentes, mas em todos aqueles rostos, o olhar era sempre o mesmo, triste, desanimado..

O olhar de quem tinha imaginado encontrar ali a luz iminente da cura e na verdade se viu esquecido numa cadeira azul de hospital durante horas, que se repetiam por semanas, meses ou até mesmo anos. Senti uma revolta muito grande. Como era possível alguém permitir que pessoas que acusavam um cansaço tamanho e viam muitas vezes a sua vida por um fio ficassem tanto tempo numa sala de espera onde o único conforto que podiam encontrar era uma cadeira de plástico extremamente incómoda? E porque é que perante tamanha injustiça nenhum dos doentes reclamava, batia o pé e se fazia ouvir? Olhei para o meu pai muito irritada e depois de já terem passado mais de duas horas de espera desde a hora a que estava marcado o tratamento, levantei-me decidida a ir fazer uma reclamação.

O meu pai olhou para mim com um ar inquieto e pediu- me entredentes que me sentasse e não fizesse nada. Na altura não compreendi e fiquei ainda mais irritada, hoje, depois de tantas horas passadas naquele piso, percebo que se aquela realidade aos que estão de fora enerva, aos que a sentem na pele assusta. Por este motivo, a maioria dos doentes prefere perder grande parte da sua dignidade e aceitar esperar mais de 3 horas pelos seus tratamentos, a arriscar desafiar o sistema. Isto porque vê naquele corredor a única bóia de salvação capaz de os trazer de volta à vida e teme vir a perde-lo se não seguir as suas regras. Passado bastante tempo ouvimos finalmente o nome do pai ser chamado no altifalante. Levantei-me num ápice e voámos até à sala de tratamentos.

O meu coração começou a acelerar. Era uma sala quadrada com vários cadeirões e muitas pessoas ligadas a máquinas enquanto o líquido do tratamento ia caindo devagarinho. Dei a mão ao pai e não a quis largar, como os pais que vão deixar os filhos no seu primeiro dia de escola. Pedi que me prometesse que me ia enviando mensagens e que me ligava quando estivesse a acabar para o ir buscar. Acenou com a cabeça e sorriu tentando fingir que estava tranquilo. Apertei-lhe a mão com força e disse que gostava muito dele. Lembro-me de na altura ter muitas dúvidas quanto aos efeitos secundários da quimioterapia e temer que o pai que fosse buscar àquela sala nunca mais fosse o mesmo por isso quis ter a certeza de que lhe dizia tudo antes..

Piscou-me o olho confiante e eu saí da sala depois da enfermeira me dizer calmamente que não podia ficar ali Mal atravessei o corredor e comecei a descer as escadas senti uma grande vontade de chorar, como se só depois de entrar ali e ver tantas outras pessoas doentes como o meu pai, começasse a tomar consciência da realidade, de que aquela seria a nossa realidade até ao fim da sua vida. Limpei as lágrimas e saí do hospital com o coração pequenino, mas decidida a fazer daqueles próximos meses, fossem eles quantos fossem, os melhores da vida do meu pai, os melhores da nossa vida em família. Tudo isto para que aquelas horas de espera intermináveis nas cadeiras azuis do piso de oncologia parecessem migalhas ao pé da quantidade de momentos bons que ainda ❤ íamos viver juntos.

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